Um conto de Boston – parte 10

A última carta deixada pelo digníssimo foi desconcertante. Português rebuscado, texto sem direção e prosopopéias mirabolantes. Cogumelos mágicos ou o mais puro retrato de uma mente maníaca? José Armando Passos, eu quero falar com você. Fazer perguntas e duvidar sutilmente das suas respostas. Quero azedar suas verdades. Mas, como? Se tudo o que faço é observar à segurança do anonimato, como interagir com você para além da passividade? Zé, Zé, Zé. Que mato. Estou cheio. Aquele texto de amor tresloucado por uma Carlota Joaquina passou dos limites. O que você me deixou hoje foi estarrecedor. O que leva um homem a dizer tanto sem revelar nada? Por que o texto é mais fácil que a conversa face a face? O que é que compõe a tal coisa essencial de nós mesmos, aquilo que nos define em identidade? Nestas cartas que recebo vejo um tanto de ti, um tanto de mim, outro tanto de nós.

João, meu João dos Prazeres. Eu nasci dentro disso. Sou a própria matéria deste mundo selvagem no qual a regra dominante é a de que nada supera o lucro. Johnny, eu tô falando de capitalismo. Dinheiro, horas de trabalho, recibo do aluguel, café para nos tornar mais produtivos. A engrenagem do planeta Terra está apoiada no sistema financeiro. Arquimedes, nos dias de hoje, pediria uma alavanca, um ponto de apoio e uns trocados para executar o serviço de mover o mundo. Nada mais justo, mas eu faria de graça. Só pela onda de ver o globo sacudido e uma baita quantidade de peso morto sair voando pelos céus afora. Já imaginou como nos faz bem essas catástrofes que se passam de quando em quando? Sei não, mas parece que o controle populacional não é algo assim tão maligno. Pode me julgar.

Okay, ultimamente soo muito amargo, né? A saliva anda vermelha, dá pra fazer um negroni com o que escorre da minha boca. Eu casei, lembra? O casamento é um barato. O silêncio custa caro. A rotina de trabalho tem sido tão apertada que não me lembro de acontecimentos recentes dignos de serem compartilhados. Você sabe, o homem ocupado é pago e promovido. Sou um deles, bastante ocupado.

Queria saber tocar um instrumento que fosse. Gaita, por exemplo, parece fácil e talvez até seja. Nunca tentei. Fuófuófuó  fi fi fififi por aí, sentado em uma pedra mirando o horizonte. Romântico ou triste, depende de quem vê. Já faz alguns meses que não uso nada para, digamos, potencializar a minha mente. Nenhuma droga. Parece moleza? Bem, depende das circunstâncias. Porque se uma pessoa corta as substâncias e, ao mesmo tempo, goza de tempo livre o suficiente para ficar em casa assistindo a TV e se masturbando, ele não sente a pancada da abstinência. O cérebro humano – pera aí – o cérebro do humano acostumado ao modelo de vida social contemporânea, é altamente dependente dos estímulos que lhe causam sensação de bem-estar. Por isso, cortar a brisa da fumaça mas continuar a compensar a química do sangue com outras fontes de dependência dá no mesmo. Comigo não foi assim. Eu saí da realidade paz e amor para a do turno de trabalho, sono, trabalho, sono e, em alguns dias da semana, dois turnos nas mesmas 24h. Money talks, man.

O que vivi até aqui? Ah, meu amigo, eu vou contar com um orgulho desmedido:

Até aqui vivi na flauta, ainda que não faça ideia de como tocá-la. Viajei muito, por lugares físicos e instantes de pensamento. Morei em diversas localidades, convivi com culturas, dialetos, cores, gêneros e orientações distintas. Nunca me faltou boa comida e uma cama confortável. Aspirei ao cume dos esportes e o alcancei sendo atleta amador universitário com muitas medalhas de ouro. De igual modo, quis escrever e, ainda que não me considere maduro, obtive meus méritos. Desejei as moças desde sempre e o único empecilho foi a adolescência e a minha cara feia. Finda a feiúra, deslanchei. Não houve amor profundo que não tenha conquistado ou corpo raso onde não tenha me encostado. Bons salários, boas companhias, lazeres voluptuosos. Confesso que só passei a me vestir bem depois que um amigo gay me deu uns toques sobre estilo, isso já bem grandinho. Antes eu era um meninão vestido como meninão. O passado nos condena em certos aspectos. Descobri que havia em mim uma grande propensão em coexistir com o perigo. Quanto maior a ameaça, melhor eu me sentia. Notei, de início, que meus animais favoritos eram a cobra, o tubarão e o leão. Uma parte da minha infância foi no cerrado e lá trombei com cobras aos montes. É uma sensação extrema, você querer ver de perto, mas morre de medo de levar uma mordida. A bicha lá, toda encolhida pronta para dar o bote, com sua língua bifurcada a ler o ambiente em lambidas no ar. Mais velho, tive a oportunidade de nadar com tubarões. O ápice da excitação, porque diferente da serpente, o tubarão vem até você e investiga, chega perto, se bobear tenta uma mordida. Quanto maior o perigo, maior a noção da vida, soa até clichê, mas é verdade. Já pulei de paraquedas, inclusive. Sabia que não senti medo? Esse nosso cérebro é um trem mesmo. Em um parque de diversões, a cada elevação do barco viking você se borra de medo, sente aquele frio na barriga e o gelo se alonga por todos os nervos do corpo. Agora, a quilômetros distante do chão, em plena queda livre, a sensação é absolutamente outra. Você sequer sente que está descendo. O limite, a terra firme, está tão longe que não assusta. O medo vem da visualização do fim. Em pleno voo essa noção é zero. Bem que o doutor me perguntou um dia ‘em vista do abismo, você tem medo ou vontade de se jogar?’ e a resposta estava na ponta da língua ‘vontade de me jogar, caramba!!’. Loucura, não? A terapeuta agora diria ‘nós não usamos essa palavra aqui, sr. José’.

Tantas aventuras haveriam de culminar com a ousadia suprema. Dei por gostar do envolvimento com mulheres casadas. Oh, cara, isso já faz tempo. Eu era solteiro e começou por um acaso. Coisa fina. Daí a coisa embolou. O bolo virou rolo. Vixe, só não acabou em tragédia porque o cara é a frouxidão em pessoa. Um amigo meu cravou o termo: Prego é o que ele é, com P maiúsculo. Coitado, nunca tive a menor intenção de fazer troça do cara. Nem pra senhora sua esposa eu fazia qualquer tipo de brincadeira com o nome dele. Daí, vou negar? Viciei. Outra e outra e outra. Casadas, com o mesmo perfil familiar, porém uma absolutamente distinta da outra. Iguais em desgraça. E eu, quando comecei a sofrer por elas, descobri que o desgraçado era eu. Quantas noites, quantos porres, quantos quase. Vivo por uma sequência feliz de acasos.

Serviu de lição? Lamento dizer que não. Meu instinto selvagem desejava mais perigo. E aí entrei pro crime. É, cara, isso mesmo que você está lendo, crime organizado. Drogas, armas, mortes e o escambau. O lobo em pele de cordeiro. Eu transitava invisível entre aqueles que perseguiam um certo alguém. Mal sabiam, eu na verdade era ninguém.

Cansei de tudo, cansei de todos. Mesmo em face do maior dos riscos, a invencibilidade traz monotonia. E aí, o que fiz? Resolvi ser um bundão.

José Armando Passos, 35, garçom e pizzaiolo, homem de família, monogâmico, reza antes da refeição e bebe apenas aos domingos. Trabalha 7 dias na semana em prol da casa própria. Não possui carro e depende de caronas, no momento. É amado e envia dinheiro à família. Resignado pai de maus frutos, esperançoso conquistador da redenção.

Um comentário em “Um conto de Boston – parte 10

  1. Reencontrado conforme aguardado nesta estação. Vivo e sagaz como sempre. Aos 35, renascido. Profecia concreta. Ame o destino.

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