Vista Cansada – continuação

(…)

O parque tem uma vista, em particular, que deslumbra. Em frente ao banco de areia onde as crianças brincam fica um pequeno elevado de terra. Um monte que se destaca sobre a planície da área verde. Há um único banco de madeira com três apoios de braço, um em cada extremidade e outro bem no meio. Há incautos que imaginam o apoio do meio um artifício de conforto. Poucos percebem que se trata de uma ferramenta da arquitetura hostil urbana. Com aquele descanso de braços, nenhum indivíduo pode deitar e fazer daquele punhado de madeira seu leito.

Passados trinta minutos entre o fato ocorrido e o presente atual, a ficha caiu. A adrenalina deu uma diminuída, o peso do ar me deu conta de que eu seria encontrado pela polícia, mais cedo ou mais tarde. Ted também não estava bem. Dormia em meu colo, despertava, vigiava o horizonte e voltava a dormir. Talvez o sabor do sangue humano o tenha traumatizado. Como em toda grande cidade, eu ouvia sirenes berrando tresloucadas de quando em quando. Imaginava quando seria a minha hora de ser o motivo daquele barulho. Hannah, o que será que foi dela depois que eu saí? Será que ela conseguiu se levantar e deixar o local em segurança? Como terá sido a sua descrição sobre mim quando perguntada pelos guardas? “Alto, cabelos castanhos, elegante, bem educado, um verdadeiro herói”. Isso sim teria valido a pena. Só que eu me pego pensando no fato de que, se eu matei uma pessoa, aquilo não faz de mim também um criminoso? Será que Hannah comentou com o oficial da lei que eu era chato pra caralho? Quanto mais a adrenalina diminui, mais a ansiedade aumenta. Um par de policiais começou a caminhar em minha direção e eu me aprumei. Havia chegado a minha hora de responder por meus atos. Beijei Ted, certo de que me separariam do fiel amigo. Surpreso ao perceber que passaram por mim sem sequer me direcionar um olhar, não tão surpreso ao ouvir sobre o que conversavam. Rosquinhas. Que dia primoroso. Discutiam se as melhores rosquinhas eram do Creme Crocante ou da famosa Rosquinhas Afogadas. Aquilo me aliviou um tanto. Sorri para o Ted, aquele inseto em forma de cão, sempre com uma ponta da língua para fora da boca minúscula.

Bebi água com toda a sede que o infortúnio havia me trazido. Ted também tinha sede e sorveu seus goles diretamente da minha mão em concha. Depois, dormiu. Acordou quando uma moça sentou no outro extremo do banco. Sorriu e abriu um livro. Na capa estava escrito “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota” de um autor qualquer que eu não podia distinguir dada a distância e as letras pequenas. Antes de iniciar a leitura, abanou o rosto com a obra.

– Calor, não? – eu disse.

– Sim, está um calor de matar – ela disse.

– Ha! Acertou em cheio!

Ela me olhou confusa.

– E aí, já está fazendo efeito? – eu disse.

– Desculpe, o que disse?

– Se o livro já está fazendo o efeito desejado.

– Como assim? – ela disse.

Visivelmente, ela tinha sérias limitações cognitivas em uma primeira impressão.

– Você é uma idiota ou não?

– Como disse, seu desaforado?

– Ué, é ao que a obra se propõe. Eu quero saber se a leitura tem garantido que você já saiba o mínimo para não ser como tal.

– Ah, bem, sim, sim. Ainda estou quase na metade.

Quase na metade é uma frase que indica grande esforço para não parecer medíocre.

– Parece um tanto audacioso o autor deste livro – eu disse.

– Sim, trata-se de um filósofo que hoje é o conselheiro intelectual de alguns líderes políticos.

– Oh, que admirável.

– Quer dar uma olhada? – disse ela ao oferecer o livro para que eu corresse a vista.

Ted, que tudo observava com tranquilidade, de imediato se colocou a rosnar. A moça recuou o braço.

– Brava ela, hein!?

Peguei Ted com minhas mãos e lhe mostrei as bolas e o pinto pendurado.

– Ele.

– Oh, desculpe-me. Posso empurrar o livro aqui por trás do banco.

Ted voltou a rosnar e agora a tremer. Coisa especial é esse negócio de chihuahua tremer quando tem raiva. Triplica a experiência. Já imaginou se fôssemos assim também?

– Não, obrigado, acho que prefiro continuar assim sem o mínimo. Você faça bom proveito.

– Eu insisto…

– Moça, se você continuar a insistir vai acabar sendo mordida. O sexto sentido do Ted é uma joia. Se ele não quer, sinal de que tem coisa aí. Aproxime-se por sua própria conta e risco.

O dia ia indo e nada de me encontrarem. Será que Hannah teria dado uma descrição estapafúrdia para que a polícia nunca me encontrasse? Que garota de ouro.

– Tudo bem, você vai ficar sem saber o mínimo para não ser um idiota hahaha – ela disse.

– Não me parece sinal de elevada inteligência depender de um livro que promete lhe livrar da estupidez, moça.

– Ora, o senhor se acha muito esperto, não é mesmo? Com o que trabalha?

– Você não acreditaria…

– Vamos, diga, senhor sabichão.

– Trabalho com bosta.

– Ora, todo mundo tem problemas profissionais – ela disse.

– Não, não. Eu trabalho literalmente com cocô. Sistema de Abastecimento e Purificação de Água do município.

– Oh, desculpe.

– Pelo o que? É um trabalho digno. Sabe, eu chego todos os dias e me deparo com aquele merdalhal da cidade inteira. A massa fétida marrom esverdeada que nada mais é que o espelho da sociedade. É inspirador.

– Você está falando sério?

– Ô! Sabe qual é a grande diferença entre as merdas do dia-a-dia e as minhas?

– Não faço idéia – ela disse.

– As minhas merdinhas não falam. Elas fedem, elas enojam, elas provocam com sua atitude incômoda de serem o indesejado em síntese. Mas, por deus, elas não dão um pio! Não comentam, não conferem opiniões não solicitadas, não falam demais nem de menos. Elas simplesmente não falam. Adiciono uns peróxidos, hidróxidos, ácidos e depois de um tempo tudo volta a ser água potável. É ou não é incrível?

– O senhor parece um tanto inconformado com a sociedade. O senhor tem a cara de quem viu um fantasma.

Olhei-a. Ela era como de outra época. As curvas e proeminências do rosto, a maquiagem e as cores que estampavam suas roupas lhe atribuíam ares de outra década. E ela achava que eu havia me encontrado com uma alma penada. Que coisa.

– É, por que você acha isso? – perguntei.

– O senhor está na mesma posição há tanto tempo, sem tirar o casaco mesmo com esse sol impiedoso a nos fritar. Parece que algo de preocupante o assombra. Acho que são seus olhos. Sabe, os olhos nunca mentem…

– QUE TÊM MEUS OLHOS? – disse de uma forma esbaforida.

– Calma, meu amigo. Apenas quis dizer que eles não parecem tão vistosos. Talvez o senhor tenha que descansar e isso seja tudo.

– Quer dizer que tenho cara de fastio?

– Cara não, só os olhos. Vejo dois olhos meio-mortos.

– A senhorita não deveria distribuir ideias que não foram pedidas.

– É para o seu próprio bem.

– Eu deveria lhe mandar à merda, mas…

– … mas aí eu iria de encontro direto ao senhor!

Tenho que admitir que foi perspicaz. Ted acompanhava tudo como em uma partida de tênis, variando o olhar de acordo com o interlocutor. Mirava à direita e via a moça e mirava à esquerda e via a mim.

– Não vejo com bons olhos essa nossa conversa, por isso vou me retirar. Vamos, Ted!

– Hahaha, essa foi perfeita!

– Como disse?

– O senhor não vê com bons olhos. Verdade suprema. Descanse, meu amigo.

– Ora, quanta presunção.

Caminhei morro abaixo com meu cãozinho no colo. Sua língua sobrava e o sol que se punha no firmamento transformava a paisagem em dourado vivo. O dia todo havia corrido sem nenhum incidente e isso me inculcou. Entrei no carro, dei a partida e comecei o trajeto de volta. Em frente ao posto de gasolina onde fica a loja de conveniência havia aquelas fitas amarelas de isolamento. Alguns policiais protegiam a cena do crime. Estacionei.

– Olá, oficial, o que houve?

– Assalto à mão armada, luta, legítima defesa.

– Puxa vida. Parece um cenário e tanto. Quem foram os envolvidos?

– O cara era um tal de Jack O’Riley. Ex-presidiário, reincidente e um problema ambulante. Gostava de beber e vivia insultando os outros com um sarcasmo incontrolável. Já era um velho conhecido de outros policiais. Chegou a hora dele.

– Oh. E quem foi que o matou?

– Uma garota que trabalha na caixa registradora. Tomou a arma em um lapso e descarregou o tambor no desgraçado. Ela é menor de idade e agora vai passar por apoio psicológico e toda a assistência devida.

– Sério? – eu disse em total descrédito.

– Sim, cara, a garota tem sangue frio – ele disse.

– Oh, puxa. Ela deve estar traumatizada com a cena.

– Aí é que você se engana. Veja como são as coisas. Ao surrupiar o revólver, fechou os olhos e apertou o gatilho seguidas vezes até que o gatilho não fizesse mais barulho. Manteve as pálpebras coladas e correu para fora e chamou a polícia. Ela não viu nada do horror, cara.

– Inacreditável. A menina, hein?

– Sim, ela garantiu que agiu por instinto e que seria a vida dela ou a dele.

– Ela reportou algum sentimento com isso tudo?

– Indiferença. Disse que remédio pra bandido é chumbo. Uma garota da pesada, cara.

– Bom, nesse caso, é como dizem: o que os olhos não veem…

Um comentário em “Vista Cansada – continuação

  1. Iniciei a leitura da moça do parque e a presunção do autor cresce a cada nova página… vai ser difícil chegar “quase na metade” nesse nível de narrativa

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