Vista cansada

– 13 dólares e 85 centavos.

– Também um maço de Camel azul, por favor – eu disse.

– 19,05 o total.

Entreguei uma nota de 20.

– Fique com o troco e tenha um bom dia – disse ao sorrir, levantar a aba do meu chapéu e pegar a sacola com um burrito de carne, água com vitaminas e, é claro, o maço de cigarros.

Ela sorriu e olhou para baixo. Ela gosta de mim, só que ela tem 16 anos. Míseros dezesseis. Eu perguntei, seu nome é Hannah inclusive. Só uso o chapéu para ir à loja de conveniência e criar a imagem do cowboy fodão, coisa que eu não sou. Nem quero conquistar a Hannah, afinal ela é menor de idade e esse tipo de transgressão é nojenta. Mas, por que não deixar ela toda feliz por atender um destemido domador de cavalos? Coisa que eu não sou, mas ela pode imaginar à vontade. Camisa xadrez, botas, óculos escuros, jeans apertados e o bendito maço de cigarro sob a sombra de um chapéu de respeito. Cara, ela deve falar de mim para as amigas e imaginar que eu sou proprietário de terras e muito gado. Ela deve achar que eu fumo admirando as pradarias povoadas por equinos galopantes. Bem o cara do Marlboro.

Nem fumar eu fumo. Já são 12 maços acomodados no porta-luvas do carro desde que eu a conheci. E eu estaciono na parte de trás da loja. Se ela vir meu carro de duas portas ela desaba. Melhor manter a lenda viva.

Sou um cara normal. E, dada a normalidade, o barato é inventar meu mundo mágico sem fazer mal nenhum a ninguém.

Fui almoçar e pedi a carne do hambúrguer bem passada. Ela veio exatamente como pedi. Alface, tomate, cebola, picles, queijo cheddar. Uma crosta negra na superfície da proteína. Que coisa linda. Nada a acrescentar, não saiu nada errado. Eu às vezes queria ter o que contar como o meu irmão tem, uma linha do tempo fantástica onde tudo dá errado, daí volta a dar certo, aí então algo inesperado acontece mas ele maneja, o céu desaba em trovoadas, ele constrói uma canoa com uma lata de lixo enferrujada e põe o mundo todo em segurança. Nananina, comigo é tudo na manteiga. O café da manhã nunca sai do controle. Mamão, ovos, abacate e leite. Religiosamente. Outro dia fui visitar um amigo em um estado distante. Cheguei em cima da hora no aeroporto. O avião estava lá e a atendente foi graciosa. Embarquei. Minha bagagem nunca foi extraviada. Chega a incomodar.

Tá aí, sou um frustrado de frustração.

Sábado de manhã é dia de caminhar no parque com meu cachorro. Preparei a sacola para recolher suas necessidades, a garrafa d’água e a coleira. Ele saltou sobre o banco do passageiro e partimos. Parei para comprar chicletes com a Hannah. Ted, o cão, entrou comigo. Ela sorriu com um sorriso nervoso. Até que enfim algo saía do normal. Uma gota de suor escorria pelo flanco esquerdo do seu rosto pueril. O ar condicionado da loja era inacreditável de frio. O que fazia ela estar assim? Não fazia a menor ideia e ela não deu a mínima para o Ted. Estranho. Paguei e me virei. Virei de novo e voltei ao caixa. Foi quando vi o cano da arma. Por debaixo da máquina registradora alguém mantinha a pobre garota refém. Oh, cara, sejamos francos. Ovos, waffles, sol e borboletas são coisas que você espera de um sábado de manhã. Armas e crime não.

– E aí baby, como vai seu dia? – perguntei

– Ahn, normal eu acho…

– Seus olhos e seus olhares… você está com conjuntivite?

– Como assim? – ela se espantou.

Caceta. Foi o que me veio à cabeça. Eu sei lá por quê. Só queria manter a presença e salvar a minha amiga.

– Parecem meio avermelhados, você está doente? Sabe, não deve trabalhar nessas circunstâncias pois pode contaminar outras pessoas.

– Não, não, meus olhos estão perfeitos. Não se preocupe, obrigada.

– Você tem certeza? Parece meio cansada, com olheiras.

– É que a vida de uma adolescente que estuda e trabalha não é das mais fáceis. A escola dá um milhão de trabalhos para fazermos e sempre me falta tempo.

Debrucei-me sobre o balcão com os cotovelos. Agora era questão de honra salvar aquela pobre alma. Ted não deu um pio. Claro, ele não era um galo e sim um cachorro. Ted não latiu nem manifestou perceber que havia um ladrão por ali. Ted é um chihuahua, não vá se enganando que eu tenho um pitbull marrom de pelo lustroso e músculos avantajados. Um pequeno cãozinho que ganhei da tia Arminda, doce e frágil sim, mas uma besta apocalíptica quando se enfeza. Acontece que Ted não é um cão de guarda, não dá para colocar todo esse fardo nas costas dele. Até porque, coitado, com essas costinhas minúsculas…

– Você deveria tirar uma folga, baby. Será que essa virose que tem pegado todo mundo não te pegou também?

– Não, vai por mim, está tudo bem. Estou saudável.

– É que essas olheiras…

– Escuta, você já falou três vezes das minhas olheiras. Eu durmo tarde e acordo cedo e não tenho tempo para maquiagem, okay? Só porque eu sou mulher não sou obrigada a estar sempre linda não, meu caro – militou.

– Perdoe a minha indiscrição. Só quero ajudar. Deixe-me ver sua temperatura.

Estiquei o braço balcão adentro rumo à testa pacífica da refém. Não havia nenhuma dobra nem sinal de que aquela testa pudesse, mesmo em face do maior desencanto, franzir. Um anjo sob as garras de um bandido. Ela recuou.

– Não quero sua ajuda. Não tenho febre – ela disse com desprezo.

– Vamos lá, deixe eu tomar sua temperatura, menina!

– Não sou uma menina. Já sou mulher!

– Seus olhos indicam alguma convalescença, calma.

– Outra vez meus olhos? Jesus, que obsessão! E não me mande ter calma.

Escutei então uma risada incontida e vi o cano da arma balançar. O safado estava se divertindo com minhas tentativas idiotas.

– Olha, Hannah, há esse vírus pelo ar, você vive em ambiente fechado, eu TENHO que tomar a sua temperatura. Por bem ou por mal.

– Se você tocar em mim eu grito. Chamo a polícia. Faço um escarcéu!

– Não é possível, venha cá – disse e a segurei pelo braço direito. Ela me mordeu.

– Aaaaaah! Caramba, ingrata!

– Eu avisei.

O filho da puta agora riu sem pudores. Levantou gargalhando e com o cano apontando para baixo. 

– Cara, como você é chato hahaha – disse ele.

Acertei-o com minha direita bem no queixo. Foi ao chão. Hannah gritou e se refugiou no canto da parede. A arma reluzia com sua superfície prateada. Tinha alguma ferrugem, mas era de verdade. O indivíduo estava atordoado porque foi à nocaute, mas ainda assim balbuciou um insulto:

– Chato pra caralho hahaha.

Dei a volta no balcão e alcancei o revólver. Segurei-o enquanto via a garotinha aterrorizada se contorcendo em vista do cenário da desgraça patética que se desenhava ante aos olhos.

– Sabe, docinho, agora quero que feche esses olhinhos cansados. Vamos, feche os olhos, baby.

Ela cerrou as pálpebras com tanta força que se formaram dobras volumosas na pele que cobria os globos oculares verdes como a grama do parque. Em pé, com o assaltante grogue aos meus pés e Hannah sob minha vista, descarreguei sete tiros fatais na carcaça moribunda. Hannah emudeceu mas não abriu os olhinhos. Soltei a arma sobre o corpo. Agora a cena era só uma desgraça, mas não era mais patética.

– Baby, mantenha os olhos fechados. Você sabe quem eu sou? Sabe quem somos?

– Não, não sei, só sei que…que…que você falou de novo dos meus…dos meus olhos cansados – disse a pobrezinha aos soluços.

– Sou, assim como você e como esse mal acabado sujeito, o meu próprio demônio. Este mundo é o nosso inferno. Agora vou ao parque.

– Posso abrir os olhos?

– Depende. Além de cansados, você os quer aterrorizados? Há vísceras e pedaços de cérebro por todo o lugar.

– MEUS OLHOS NÃO ESTÃO CANSADOS, PORRA!

Ted lambia o sangue que escorria do defunto. Tomei-o no colo e parti. Nunca mais soube dela.

Um comentário em “Vista cansada

  1. Oi Aquiles bom dia, nossa acordei e fui ler esse texto da ordenha cósmica, fiquei tão presa ao texto é oque aconteceu depois? Com a Hannah e Assaltante quem era? E o personagem principal que para mim era bem VC 😛 adorei 👏👏👏

    A segunda, 18/10/2021, 20:26, Ordenha Cósmica escreveu:

    > Aquiles Rapassi posted: ” – 13 dólares e 85 centavos. – Também um maço de > Camel azul, por favor – eu disse. – 19,05 o total. Entreguei uma nota de > 20. – Fique com o troco e tenha um bom dia – disse ao sorrir, levantar a > aba do meu chapéu e pegar a sacola com um bu” >

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