Um Conto de Boston – parte 7

Quando cheguei ele já estava lá. Coçava o lóbulo da orelha esquerda, coçava o cotovelo direito, todos os dois com a mão esquerda, voltava a mão dentro do bolso da blusa e repetia a cena um tanto de vezes. Enquanto eu ficava do outro lado da plataforma, no sentido de quem ia, ele me parecia que já voltava. Um trem chegava e interrompia a visão. Outro trem e mais alguns minutos de vazio. Quando partiam, para o meu alívio, lá jazia meu escritor do mundo. Entre uma das interrupções do plano visual ele sacou o papel e o colocou ao seu lado. Uma mulher se sentou e ele sinalizou que tivesse cuidado, pois aquela carta ocupava ela mesma um espaço humano. As suas palavras, afinal, são o elo com o todo. Se simbolizam a fala confessional, também dão forma a um indivíduo, um cidadão, uma mente que parece precisar, entre humor e selvageria, pôr para fora. Somos dois anônimos com um trilho expresso entre nós, literalmente. Eu uso óculos escuros e, deste modo, posso monitorá-lo por mais tempo sem que ele saiba que sou eu, o seu João dos Prazeres. Ele, meu José Armando, sabe que alguém o segue, o observa, alguém simplesmente se alimenta em sua fonte. Seria eu? Ou o cara à minha direita? Ele nos corre os olhos tentando adivinhar. Podemos ser qualquer um e todos podem ser alguém. Zé empunhou o papel e o balançou. Era como uma isca presa ao anzol de seus dedos compridos. Zé queria mostrar que ali embaixo as leis eram diferentes. Ele queria contato pessoal, queria que eu fosse buscar o que era a mim destinado. E acabar com toda essa fantasia? Fui ao banheiro. Demorei. Depois, fui tomar um café. É primavera e o frio abrandou. A temperatura já não é negativa aqui na capital de Massachusetts. O café puxou a vontade de voltar ao banheiro. Demorei menos. Voltei às plataformas e ele tinha partido. A moça tinha a carta em suas mãos. Dia lindo, minha senhora. Senhorita. Senhorita, esse pergaminho pertence a mim. Tenha a bondade, obrigado. Até logo. Ah, antes que me esqueça: não fui eu que encontrei o poema.

“João dos Prazeres, meu amigo oculto, onde está você? Vim e não o encontrei. Também, pudera, como o faria? Não sei quem é, tampouco qual o timbre de sua voz. Deixei uns dos meus poemas malcriados, acredito que outro pegou. Sabe, cara, a vida é uma montanha russa da porra. Tem dias que você tá lá em cima, depois lá embaixo, a adrenalina arrebenta com as ideias, depois você se recupera e quando parece que vai sossegar a gente percebe que não sai nunca do carrinho. E começa tudo de novo. O cara da catraca não deixa ninguém sair, mas vira e mexe ele tira alguém. Tô fazendo uma parábola com a morte, cara. Pegou?

Eu falei que escrevi um poema. Olha, me dói dizer isso mas, honestidade à prova de tudo, a verdade há de ser dita. Nem o sol do meio-dia, nem o silêncio da madrugada. Não chego em primeiro lugar, tampouco sou o constrangimento do derradeiro. Os pesos maiores eu suporto, mas não os levanto. Há em mim uma vocação para um tudo ser meu ofício, porém com destreza sempre moderada. Sou medíocre. No esporte, nas artes, no amor, na caligrafia, em matemática, no preparo de receitas líquidas ou massas de pizza, na fotografia. Oh, pobre de mim. Pobre não, classe média de mim!

Aproveitando o gancho, meu distinto correspondente, comunico oficialmente que sou, desde há um mês, pizzaiolo. A massa tem que ser estirada, espetada, umedecida, coberta e aquecida. O restaurante é muito movimentado e, para além de apenas pizzas, ainda tem sanduíches, pastas e, pasme, sorvetes e outras sobremesas. Eu também faço as vezes no lado da grelha, coisa que é odiosamente desafiadora. Meia-boca que sou, cometo alguma lambança todos os dias. Mas, continuo firme e forte no aprimoramento das técnicas de produção rápida de refeições. Aí é que está. Trabalhar ali, à parte do ótimo salário, é um desgosto sem fim e eu posso explicar o porquê. Fere meus princípios ideológicos. Sou partidário do slow food, slow process, slow way of life. Gosto da falta de velocidade e da não necessidade de pressa. Se quero almoçar às 12h, tenho que dar início às preparações por volta das 10h. Comida combina com música, taça de vinho, danças intercaladas, pano de prato pendurado no ombro. Vira e mexe alguém vai em casa e se depara comigo ainda no descascar dos alhos. “Posso te ensinar um truque pra tirar a casca mais rápido?” NÃO! Que caralhos! Essa gente está sempre atrás de fazer as coisas com mais ansiedade, buscando os fins sem desfrutar dos meios para tais. Que imenso porre! Eu me pergunto, muito frequentemente, se esse pessoal faz sexo da mesma maneira atropelada. Um rebanho de fodas meia-bomba. A minha bebida matutina preferida, um estilo de café gelado, leva no mínimo 12 horas para ficar pronta. Eu encarno a minha filosofia.

Dei um tempo no psiquiatra. Ou ele me deu um tempo. Fez pouco caso, nunca me buscou por telefone ou coisa que o valha. Puta derrota. Talvez eu não seja assim tão interessante como pensei. Ele era. Bom, aí é que o bicho pega. No meu dia a dia, ninguém preenche a lacuna de conversas interessantes e provocativas. As pessoas concordam, elogiam, dizem até que eu sou muito inteligente. Adulam, refrescam, parecem temer na mesma medida que admiram. Não passam de aduladores. Eu disse para um amigo que rasparia meu bigode e só deixaria a barba como no estilo de Abraham Lincoln. Ele disse que seria uma forma excelente de se manter imune a quaisquer gracejos de terceiros. Em suas palavras, ele quis dizer que eu ficaria muito feio. Não é esse o grande temor dessa gente? Tornarem-se pouco atraentes. Sim, eles temem a feiúra e desejam a velocidade para obter resultados. Ansiosos e angustiados. Eu não receio me embarangar nem anseio por mega eficiência. Talvez por isso eu seja medíocre.

Uma amiga que lê coisa ou outra que escrevo reclamou que sempre a narração é em primeira pessoa. Ora, fazer o quê? Tenho culpa de ter vivido tantas diferentes facetas deste dado meneante que cambaleia sobre o tabuleiro da vida? Recordo minhas histórias, rego minhas flores, edito meus parágrafos, protejo meus amores. Um beija-flor, um camelo, uma águia. Somos tantos, especialmente na imaginação.

Você, quem é?”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s