Constância

Iogurte fresco da fazenda, banho de água fria, 50 abdominais e 50 flexões de braço. Mamãozinho picado para abrir os trabalhos. Chorinho no rádio, chororô no corredores do prédio. As cigarras estridulam e os cigarros jazem à meia-vida no cinzeiro mal higienizado. Não confundir o substantivo feminino com o masculino, um vem da terra e o outro te manda para baixo dela. Meu nome é Astolfo das Cruzes, sou o maior vendedor de ilusões da paróquia. Meu vizinho, o Asdrúbal, é quem pesca. Bom, era. Seus joelhos começaram a doer e ele resolveu dar um tempo.

Eu, não. Não paro, não dou um tempo, não alivio. Um chopinho, bora marcar. As coisas vão melhorar, o dólar vai sim baixar. É só tirar quem está lá. E quem é que está lá? Tanto faz, é só a gente tirar. Daí, tudo muda. Ou não. Mas temos que continuar tirando. Pedrada no ônibus, protesto na avenida Brasil. Palavras de ordem. Pátria, progresso, cachaça pura e o bicho de pé. Meu nome é Astolfo das Cruzes, o maior vendedor de ilusões destes rincões. Tenho um nome – e sobrenome – a zelar. O segredo é a paixão. Sou vidrado no lucro e olha que não estou falando de dinheiro. Posso vender peças usadas para o dono da loja de roupas. Eu só não consigo vender consciência de classe, mas posso vender até a ideia de que eu presto. Ser da família das Cruzes ajuda. Background religioso, você sabe, dá um certo apelo de confiabilidade.

Não preciso fazer terapia, caramba, eu sou Astor para os mais chegados. O segredo é conversar com quem faz, daí fica uma baba: eles chamam a minha atenção com pitacos que ouvem de seus terapeutas e, magistralmente, transferem para o próximo indivíduo com quem interagem. Se me chamam prolixo, é porque ontem foram acusados de loquacidade. Ai ai, chega a dar um comichão, tamanha a ansiedade em ouvir suas análises projecionais. Sendo atacado eu conheço mais sobre eles. Quanto a mim? Pô, eu usou Astor, o perspicaz, o maior vendedor de ilusões do mundo inferior. Astor, me lembra um cachorro que tive. Dogue alemão, pernas longas e bochechão caído com a baba escorrida se esticando quase até o chão. Eu pareço o Astor quando ficava no cio. Que baixaria. É só eu não fumar que não uso os aplicativos de relacionamento. É só eu não beber que eu não fumo. É só eu não brigar com a minha vizinha, a Cleide, que eu não bebo. É só a Cleide não tocar Wilson Simonal que eu não brigo com ela. É só não ser sexta-feira de manhã que a Cleide não toca Wilson Simonal. Puta que me pariu, lá vou eu de novo. É sexta-feira, já posso ouvir meu limão, meu limoeiro.

Só um instante! Que blá-blá-blá sem fim. Dizia que era vendedor de ilusões. Posso vender o glamour de ser fora-da-lei, sim, esse Astolfo aqui, de pele fina e bom gosto quanto às marcas de alcachofra em conserva que há no supermercado. Com a minha cara de ilustre cidadão criado à base de sustagen, posso lhe convencer que não só sou um criminoso como que, também, o crime compensa. Não compensa para todo mundo, é claro. Somos brancos, nós que nos entendamos. Tapa na mesa! Pá! Pombas, que sacada! Sou o senhor das Cruzes segundo o Fabiano, o porteiro do condomínio. Um dos porteiros, porque tem ainda o Williams, o João e o Gasparzinho. Sobre esse último, o nome é em homenagem ao seu comportamento durante a guarda noturna. O lazarento nunca está em seu posto. Paciência, afinal, eu tenho. Astolfo das Cruzes, maior vendedor de ilusões do condomínio. Todos pensam que eu sou um estranho no ninho por ali. Tratam-me como uma espécie de subcelebridade, vai entender?

O segredo é iludir. Ducha, exercícios, café gelado, vitamina D, beringela com alecrim, suco de romã, amor ao próximo, cachorro-quente com carne moída, cerveja malzbier para lactantes, entrevistas consigo mesmo no espelho, meditação reversa, chocolate meio amargo, delitos e repentinos arrependimentos, saudade e asco, contradições justificáveis, caipisaquê de lima, hipocrisia sem açúcar, banana com mel, compaixão arrependida, aventuras de shopping center, brincos novos, socos na parede, ódio ao tabaco e overdose de Lucky Strike, massagem na penumbra, banquete com os leões, porres homéricos, dobradinha com farinha e pimenta, anarquia e obediência, grupal, convencional, monótono e desequilibrado, música lenta para acordar, gemidos para dormir, dinheiro na cueca e pau no, pássaro na gaiola, carne na gôndola do mercado, kombucha para o estômago, surdez para a sanidade, cor azul na parede da sala, criado mudo para a casa grande, esgoto ao mar e flúor nas torneiras, remédio para ema e vacina para todos. Sou Astolfo das Cruzes, o maior vendedor de ilusões desta página. O segredo é a constância.

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