Um conto de Boston – parte 5

A tensão de ser quase descoberto me animou como há muito tempo não experimentava. Ao passo do fascínio por encontrar e ler as cartas do transeunte anônimo, escritas em português e cheias de lamúrias gloriosas, fui me tornando receoso de ser reconhecido. Mas, ainda assim, entre o dilema ético de querer saber mas não querer ser sabido, continuei minhas visitas semanais na mesma estação de trens, com olhar fixo naquele banco de madeira descascada. À uma distância segura de onde poderia monitorar o fluxo de cidadãos sem ser denunciado, permaneci semana após semana com um livro em mãos, abaixando-o frequentemente para poder examinar o meu alvo. O livro era O Mito de Sísifo, de Albert Camus. Minhas expectativas anímicas de ler sobre uma mente claramente tão perturbada, sua relação com o mundo e suas caminhadas limítrofes na beirada do abismo se agigantaram em meu peito. A vida valia a pena? O blablabla giratório tinha algum sentido? Havia algum sentido a se atribuir ao acaso? Bem, na visão de Camus, a vida é um fenômeno absurdo que se dá à revelia de um sentido pré-existente e absoluto. Você confere, com plenos poderes, o significado do seu próprio viver e essa liberdade é a quintessência daquilo que de mais valioso dispõe o ser humano: a capacidade de criar. Ideias, ideais, movimentos, contra-movimentos, oposições e situações. Criadores são todos aqueles que triunfaram. Ao mesmo tempo que descobria essas maravilhas do indivíduo afirmativo, também me preocupava com meu amigo sem identidade. Ele sumiu justamente quando mais se pôs a falar. Quando voltou…

“Ao meu digníssimo João dos Prazeres, homem de conduta ilibada.

Uma dor imensa me compele a escrever, outra dor me impede de me mexer as cadeiras. Não as da sala, senão mesmo as minhas.

As mães morrem. Perdoa o borrão sobre a palavra materna. Uma lágrima ousada saltou sobre o papel.

As folhas secam, as moscas duram alguns dias, a areia do deserto é em constante momento soprada para além, além do agora. Pudesse lhe dizer algumas coisas, seriam:

Levam a ti solitário grão

aos confins da distância

que a mim parecem irrisórios

mas não cansa o vento

em querer me confundir

quando se alevanta em profusão

e depois cessa peremptório

tornando a luta impossível

e a dor uma convicção.

Eu tô loco? Eu sou louco?

EU NÃO TÔ LOCO!

Mentira.

Nas últimas semanas atentei para o imenso prazer de sair de casa exatamente às cinco e quarenta e três da tarde. Sol já à sopé. Motivo? Parece ser concedida a efêmera liberdade a todos os gatos da vizinhança. Em cada entre quadra há um bichano em posição retraída, olhos semi cerrados, bigodes alongados e rabo serpeante. Há um todo branco, cujo nome (para mim) é Snowball. Um outro, que nasceu com bolas e pênis, chama Frida. Gênero fluido. Tem também o Kittler, que é o mais bonito de todos. Parece uma casca de sorvete meio pistache, meio baunilha, cinza com branco. Sim, porque o pistache autêntico é acinzentado. Em inglês, kitten é gatinho. O Kittler tem a área sob o focinho de cor negra, fazendo com que se pareça com o bigode do Adolph. Logo, Kittler. Ele é forte, olhos azuis, estrutura robusta. Raça pura. Costuma me deixar fazer 18 carinhos antes de me morder. Foda-se ele. Afago a todos, menos a Frida. Ouriçada, ela repele o carinho. Tudo bem, não é não.

Tive um breakdown num dia desses. Liguei para o meu terapeuta. Disse “olha aqui seu corno, eu acho que o suicídio é algo plausível para suportar uma noite mal dormida.” Ele, sábio, manteve a calma. É do tipo que chama à reflexão da etimologia da palavra corno e como ela se tornou termo pejorativo.

Borboletas voavam à noite, um vigilante tinha me pedido para não deixar ninguém sentar em meu colo, Natália dançava e os náufragos tropeçavam bêbados. Eu mesmo estava embriagado. Paciência, é o que eu sei fazer. Enlouquecer.

No encontro seguinte, a pergunta: “você tem histórico de esquizofrenia na família?”

SEU CU, FILHO DA PUTA.

  • pensei.

Uma namorada antiga dizia que eu poderia formar uma dupla musical. Chamaria Esquizo e Frênia. Não fazia sentido, argumentei. Ela insistiu.

Porra, o insulto era duplo, metalinguístico, sagaz. Eu, sozinho, era dois. Talvez até mais, a ponto de formar um grupo musical. Auto intitulado Esquizo e Frênia.

Nunca houve maior ofensa à minha honra. Apaixonei-me como um cão, um cão dos diabos.

O mesmo terapeuta, aquele degenerado, atentou que eu andava perambulando opostamente aos ensinamentos do velho Sócrates.

“Nenhum homem tem o direito de ser um amador em matéria de treinamento físico. É uma vergonha para o homem envelhecer sem admirar a beleza e força de que o corpo é capaz.”

O corninho. Só porque eu bebo, fumo e divago sobre aqueles que tiram a própria vida. Só que eu sou preparador físico. Dirão “ah, quanta hipocrisia”. O meu terapeuta usa o termo incoerência.

Recalque?

Education is important, but a big biceps is importanter – diz o anúncio sarcástico de uma academia aqui de Boston. Haha, touché old friend.

No meio da sessão ele movimentou o braço com premente dor. Perguntei o que foi, ele disse que era um mau jeito. Ofereci para ajudar, ele recusou. Tentou retomar a conversa. Eu queria mais é que tudo fosse pros ares. Levantei, cruzei sua mesa e realinhei a musculatura rombóide. Usei a ponta do cotovelo contra uma musculatura retraída. Tensão excessiva nas superfícies dos músculos, nas fáscias. A linguagem do corpo não mente, Wilhelm Reich que o diga. Importante atentar.

Até agora eu disse muito e não disse nada. Mas não é essa a essência do meu texto claudicante? A rábica existência que se opõe ao terapeuta e sua fleuma inabalável?

Ora, meu amigo, o que fica são essas impressões indeléveis.

Tenho mãos mágicas, mente perversa e muito falo.

2 comentários em “Um conto de Boston – parte 5

  1. Um conto de Boston, diário (Espero que quase semanal) que desejo que nunca acabe. Seus textos são como interpretar o seu diário e tentar descobrir como você funciona. Tentativa completamente falha, eu sei.

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