Um conto de Boston – parte 3

Penso que deve haver algo de grandioso neste salutar exercício de dar seguimento aos registros apócrifos que encontro, há três semanas, no mesmo lugar e por volta do mesmo horário, na estação norte de trens de Boston. Estava distraído me despedindo de Margareth e quase passei do ponto. Recomendava que ela usasse arnica em seu joelho em alternativa aos fármacos convencionais quando me dei conta que já tinha dado uns dez passos além do cantinho onde costuma estar a carta dobrada, com as margens puídas e letra garranchosa, um baú de intimidades recalcitrantes e confidenciadas sem pudor ou padrão ético. Despedi-me bruscamente de Marge e enviei minhas saudações a Donald. Virei-me e driblei a tropa de cidadãos que marchava impiedosa. Lá estava o pergaminho.

As semanas têm passado mais rápido ou é impressão minha? – existe papo de elevador mais enfadonho que esse? Eu sorri quando a moça exibiu toda a sua genialidade atemporal na tentativa de interagir comigo. Não podia perder a oportunidade. Respirei fundo e falei “sim, tem razão. É um fenômeno observado primariamente na Suiça, por uma junta internacional de cientistas dedicados ao tempo e suas ranhuras. Chama-se inter-relatividade de camadas bósicas não discriminada em funções derivadas, vulgarmente conhecido por subjetividade quântico-temporal.” Silêncio. O elevador apitou – plim! – e eu cheguei ao andar do laboratório de análises clínicas. A cara da garota era impagável. Se fosse uma pizza, seria meia indignação, meia dúvida. Será que eu falava sério? Os outros ocupantes da máquina ascensora estavam todos, ao exemplo da minha interlocutora, com os lábios entreabertos em espanto. Um senhor olhava repetidamente seu relógio de pulso e dava umas pancadas. Continuei sorrindo e saí daquele microcosmos de frivolidade. Estava livre do papo morto, mas ainda tinha o exame para fazer. A lei de compensação divina poderia muito bem equilibrar aquela cretinice com um diagnóstico positivo. Tem coisa pior que aguardar para abrir o envelope com resultado de exames de sangue? Tem, ah se tem. Presunção de conteúdo por livre exercício do pensamento. Gente que fala sem saber, na linguagem popular.

Tenho um vizinho que é muito divertido. Gosta de beber bebidas baratas e ficar embriagado. Quando compro alguma bebida mais cara e abro para nós bebermos, ele não se impressiona. Sujeitinho engraçado. Gosta de tecer suas opiniões e eu sou o melhor dos ouvintes. Absolutamente tudo o que ele reporta como suas ideologias é o oposto de sua conduta. Se ele fala que não gosta de futebol, eu rio. Domingo à tarde, posso ouvir seus gritos apaixonados enquanto assiste a uma partida qualquer. A contradição me encanta. Ele se diz anti-capitalista, no entanto… recebe um salário mínimo. Acho que os paradoxos, esses caprichos de arquétipos não previsíveis, inconstantes e fronteiriços, nos unem de uma forma sutilmente comprometedora.

Ontem à noite levei muito tempo até conseguir adormecer. Alguém no prédio ouvia Madonna no último volume. Deve ter riscado o disco. Eu gosto da Madonna, ela tem garra. Antes de ficar famosa, posava nua para artistas. Fotografaram, pintaram as suas curvas e também aquela pinta que ela tem acima da boca. Que sorte a desses caras. Será que ela também realizava alguns favores íntimos em vista de uns trocados? Tem um cara muito bacana, polêmico (ao menos lá no Oregon hehe), uma espécie de guru indiano que manda bem nas colocações. Ele se chama Osho. E Osho disse que “toda vez que ele encontra uma prostituta, ela quer falar sobre Deus e sempre que se reúne a um homem religioso, ele quer falar sobre sexo.” Tudo o que nós negamos a nós mesmos se torna a nossa prisão mental. A renúncia aos desejos não é um caminho fácil para a felicidade. Tenho grande apreço pelas profissionais do sexo, conheci algumas. Já namorei uma. Gente que suporta humilhações, situações desagradáveis e extremos cotidianos em troca de dólares. Quase igual à maioria da sociedade trabalhadora, só que com a diferença de um genital a mais entre as pernas.

Salvei um cavalo no meu último aniversário, um cavalo da polícia montada. Chovia bastante, eu estava encostado no balcão de uma cafeteria. O rapaz que manuseava a máquina de espresso usava um avental de sarja, levava uma boina mostarda de couro de porco na cabeça e óculos sem armação pendurados em um nariz que fazia sombra ao bigode longo e redondo que lhe cobria os lábios. Ele tinha um pano de pratos branco no ombro direito que a toda hora usava para enxugar copos e xícaras. De repente, parou e desarmou a empunhadura de secagem. Ficou com os olhos bem abertos, como a sua boca, olhando para a rua exibida pela fachada de vidro da pequena lojinha. Estava de costas e me virei. Um grande, todo paramentado cavalo empinava as patas em plena avenida. Que cor linda, aquele negrume retinto que reluzia à luz dos relâmpagos que iluminavam o céu. Assustado, o animal relinchava, sacudia o corpo e ameaçava uma tragédia. Eu estava só, bebendo meu café em paz. Os carros buzinavam. Aproximei-me da porta, abri, vasculhei as redondezas e não vi ninguém vindo em socorro. Tirei minha roupa – calma lá, fiquei de calças – e caminhei até o bicho. Sei que não se deve encarar um equino direto nos olhos, mas eu queria sentir a dor dele. Queria decifrar seus pavores, o que havia levado àquele rompante histérico, àquele vexame público. Fui chegando e conversando com ele: “Hey Timothy, calma aí cara, tá tudo numa boa.” Ele gostou do nome. Tim relaxou, eu tomei suas rédeas e o conduzi à calçada. Fazia carinho nos seus pêlos úmidos e coçava seu pescoço. O público gritava, aplaudia. Eu tinha salvado o dia. Logo surgiu uma policial mulher, na sua farda azul escura decorada com a vergonha de uma falha tão monumental. Como ela havia se descuidado daquele bem tão precioso? O sorriso amarelo era o suficiente. Não precisava lhe dar nenhuma lição de moral, afinal, submeter outros ao ridículo é um pecado grave. Eis outro mantra. Sofri com o cavalo a dor de ficar exposto, desencontrado, ansioso. Vulnerável. Que história, não? Parece até mentira, mas não é. Voltei, ensopado, para o café. Não precisei pagar a conta. Sensibilizei-me com o bicho, sensibilizaram-se com o animal aqui.

Tive dores na semana passada, atrás da perna. Surgiram após uma noite de excessos. A investigação foi frustrante porque não podia indicar uma razão plausível para as pontadas que em dois dias passaram. Delírio? Ilusão? Negacionismo? Cerveja gelada. Bebi para passar. Funcionou. Pensar não é pop. Cerveja é pop. Para dores, pop culture.

Não fui ao encontro do terapeuta. Ele que veio até a mim, o desavergonhado. Se eu fosse uma casa com a maçaneta trancada, ele seria o pé de cabra. Aliás, justiça seja feita, ele não é terapeuta e sim médico. Médico psiquiatra. Eu achava que uma coisa levava à outra. Queria que ele me levasse a algumas drogas, hahaha. Gosto demais do sujeito, ele tem fome por provocação. Isso é tenebroso e audaz, uma arte que torna a conversa mais saborosa, instigante, espontânea. Falo vários idiomas, dentre os quais o anglo saxão. O doutor fala inglês, ora veja só. Percebi que não falamos a mesma língua. Dia desses ele se interessou por obras que eu ando lendo. Fez algumas perguntas e eu as respondi. Sabe aquelas impressões pessoais sobre algo que você tem contato? Pois então, são como um couvert de restaurante com azeitonas, pão e salaminho. Abrem o apetite mas, para matar a fome, tem que se pedir o prato principal. Eu dizia:

– Bukowski era um gênio da escrita simples e envolvente, aquele velho desgraçado.

– Curioso que, dentre tantos expoentes românticos e floreios realistas, você opte por se projetar naquela crueza porca. O que resta?

– Devagar…

– Exato, por que será que a fraqueza de se ver assemelhado a algo tão pouco nobre incomoda?

– Devagar…

– Posso divagar mais, muito mais.

– DEVAGAR!”

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