Pombal

Ai, ai, ai, ui, ui / Loira ou morena / Tremendo mulherão / Sorria, pois você está na televisão / Quem quer dinheiro?

Assim ele sabia que seu final de semana havia, oficialmente, chegado ao fim quando o Silvio Santos começava a cantar nas noites de domingo em pleno palco do Topa tudo por dinheiro, programa pitoresco de humor liderado por um judeu, ex-camelô e simpático apoiador da política de direita. A maior constatação da velhice enraizada na mente humana é quando ela – a humanidade – passa a calibrar os horários do dia, as tarefas cotidianas, com a programação da televisão. Certa vez, logo após buscar os pães quentinhos da primeira fornada matinal, topou com um velho conhecido na porta da padaria.

– Senhor Bonifácio, gostaria de convidá-lo para um recital de violão que será realizado na próxima sexta-feira.

– Onde tomará forma tal apresentação?

– O teatro municipal será a casa das cordas melodiosas.

– Qual o horário do evento?

– Às 20h, meu amigo.

– E dura quanto tempo?

– A seresta mais a devida confraternização no boteco do Valdir, que fica em frente ao teatro, deve roubar três horas noturnas do ilustre cavalheiro. O mestre cervejeiro agora anda servindo um tal bolinho de feijoada, recheado com couve, feijão preto e paio. Dizem que é de cair o queixo.

– Infelizmente devo informar que não comparecerei, pois não posso perder o comentário político do jornal das 21h e também já aguardo ansioso o Globo Repórter sobre as belezas do rio Nilo que dar-se-á no mesmo intervalo de tempo do concerto. Agradeço o convite, até logo.

Direto nas opiniões e conservacionista da arte de observação à distância, pela janela, Bonifácio adora ter sua opinião ouvida. A bem da justiça, a dependência da TV só se dá em período noturno. Durante o dia, toma seu café preto e sem açúcar e, acompanhado por livros, senta-se em frente ao buraco na parede que é preenchido por vidro. Do alto da soberba e do nono andar, pensa a esmo recolhido ao silêncio da incompatibilidade com o mundo. Em frente ao prédio onde mora há a igreja matriz da cidade onde, nas bordas da abóbada central, concentram-se uns tantos pombos que entre arrulhos e voos também copulam. Ainda que não seja esteticamente feio, o pombo é o animal símbolo da doença, da sujeira, da vida ingrata pelas ruas. O rato de asas, como se costuma referir ao ente aviário, é agraciado com exceção quando está em unidade solitária e sua cor é branca. A pomba da paz, do espírito santo, da graça. E é exatamente uma pomba sozinha, branca como leite, que criou a  mais inusitada relação homem-animal com o velho Boni. Observando-a ciscando por entre os vãos do telhado ecumênico, com aquele jogo de pescoço vai-e-volta típico, assistiu ao impossível. A pomba parou o que estava fazendo e o fitou diretamente, da distância abismal que os separavam. Alçou voo direto com poucas batidas de asas e pousou na janela que servia como vitrine do mundo. Bonifácio, encantado com a proximidade do animal e seu olhar inquisidor, inclinou-se na cadeira de balanço e sorriu para a ave. Com olhos vermelhos, a pomba girava a cabeça a fim de que os dois globos laterais pudessem analisar a figura idosa que se projetava com curiosidade frente ao animalzinho. Um vento revolto batia e levantava insistentemente as penas de sua cabeça conferindo-lhe uma tal aparência patética. A pomba então bicou três vezes a região do trinco que travava a abertura da janela.

– Ora, que bichinho mais esperto! – disse Bonifácio em voz alta do lado de dentro do apartamento.

– O que disse, Marinho? – indagou sua funcionária doméstica que o chamava pelo sobrenome.

– Nada, não é contigo, Railúcia. Fia-te às tuas obrigações. – disse um ríspido Boni que não é dos mais afáveis patrões e, sabe-se lá o porquê, expressa-se quase sempre na segunda pessoa do singular.

A pomba então voltou a bater o bico outras três vezes contra o vidro e a girar a cabeça em sinal de ansiedade. O velho puxou a cadeira para mais perto da janela e, puxando uma trava, permitiu que o fluxo de ar entrasse sala adentro. Com um salto simples, a ave se assentou na borda da basculante. Bonifácio estava maravilhado com aquele encontro, tão inusitado quanto pouco crível. Empolgado, exclamou em voz alta:

– Tu estás com fome ou sede, ó amiguinha? Vou buscar algumas sementes e água!

Ao insinuar o movimento de pernas e braços para se erguer da poltrona de balanço, eis que a parte fantástica da história entrou em cena. Com uma voz aveludada e do gênero feminino, com dicção pausada e clara, a pomba se apresentou:

– Meu bom senhor, fique bem aí onde está. Meu nome é Clarice e eu não tenho fome, senão a por conhecimento. Já fui planta e já fui gente, essa gente comum do dia-a-dia, já fui felina e até mesmo uma nuvem, veja só! Certa vez tomei a forma de pernilongo e percebi que chupar o sangue de humanos não era tão distinto de lhes trair a confiança sendo eu outra humana. Ao tentar puxar papo na forma do mosquito indesejado, não percebi que minha voz saía muito baixinha e que o que chegava aos ouvidos dos homens era apenas o zumbido irritante que caracteriza a classe. Acabei em um tapa violento, esmagada entre as palmas gigantescas de um Zé qualquer. Tenho apetite pela conversa boa e franca, ademais não poderia me alimentar das sementes suas pois sou ave ralé, daquelas que ciscam o resto do resto, que resta de um todo. Diga-me, o senhor não se cansa?

O pobre Bonifácio beirava o colapso nervoso ao presenciar um animal que falava, articulava com maestria e ainda indagava com petulância.

– Meu Deus, o que é isso? Estaria eu sob efeitos alucinógenos? Uma pomba que fala! Como és tão bonita, lustrosas as tuas penas e tua voz tão agradável! Sou Bonifácio Marinho, teu criado. Agora, confuso me encontro com tal pergunta. Cansado de quê?

– Ora, meu bom homem, cansado de tanto olhar, olhar, olhar e não interagir. Há semanas que perambulo pelas redondezas e o vejo sempre aí, na distância do olhar comedido que muito vê, porém pouco compartilha. Creio que há muito o que sair destas cordas vocais suas. Já sente o peso da idade? Encontra-se cansado daquilo que é humano, demasiado humano? Permita-me, preciso conhecê-lo melhor, aquele é um Picasso?

A safada da pomba reconhecera um quadro pendurado às costas do sexagenário.

– Sim, é um Picasso. Mas é uma cópia, não posso arcar com os custos de um original. Que coincidência feliz, uma criança acolhendo uma pomba!

– Que diferença faz o original? Este lar não é um museu, pouco importa outra coisa senão a imagem em si. Quanta ternura. Sim, mas retomando, quais são as suas queixas?

– Ora, minha amiga, sou um homem que muito já viveu. Alegrias, desilusões, ilusões  de esperança. No meu tempo que era bom, nós conversávamos com propriedade sobre assuntos diversos e a cordialidade ditava a melodia do diálogo. No meu tempo tudo  aquilo que fosse chulo era rejeitado, no meu tempo…-  os tempos agora são outros e eu prefiro me recolher ao seguro refúgio da minha própria sala de estar.

– É por isso que tem preferido assistir ao Silvio Santos a encontrar com os seus?

– E como sabes disso, ó pombinha enxerida?

– Ora, tenho asas e posso voar aonde bem entender, pois por vontades sou guiada. Às vezes encontro-me quieta a observar e a escutar, sobre as cabeças daqueles que só tendem a olhar para o chão. Estando no alto, posso olhar ainda mais para cima, com os ouvidos porém atentos a tudo o que vem de abaixo.

– O que queres dizer?

– Você precisa subir, Boni! Ou talvez navegar, fazendo jus ao sobrenome. Diga-me, já não é hora de deixar a cadeira e passar a, então, balançar o mundo?

Ao melhor estilo mestra dos magos, tão logo pronunciou a frase enigmática abriu as asas e despencou ao sabor da gravidade. O velho deu um salto e acompanhou a queda livre da ave por alguns andares até que, em vigorosas agitações aladas, ela recuperasse o controle do plano de voo. Sumiu em curvas por entre os prédios da vizinhança. Bonifácio ficou entusiasmado com a intervenção sofrida naquela manhã fatídica e decidiu reunir os amigos no mesmo boteco do Valdir rejeitado previamente. Lá se encontraram, conversaram e, claro, degustaram os bolinhos de feijoada, uma iguaria que correspondia à expectativa. Os convivas, que já desde há muito só encontravam Bonifácio ao acaso da fila do pão ou da lotérica quando iam pagar contas, perceberam no companheiro um homem alterado como em um passe de mágica. Falante, com a voz impostada e desejoso por debates clássicos de mesa de bar. Argüiram sobre política, religião, futebol, tudo aquilo que a cartilha de bons modos reza por não se discutir. Sobre damas formosas e os efeitos entorpecentes de seus atributos físicos, comuns em outrora, também relembraram. As garrafas de cerveja secavam, vinham outras e mais amendoim, bolinhos de bacalhau, guardanapos baratos que desmanchavam ao contato com a gordura sobressalente. Ao se despedir, recebeu afetuosos abraços e a alegria geral era tanta que não o deixaram sequer pagar a conta. Havia reconquistado a plena admiração do grupo. Voltou para casa sorridente e ansioso. Gostaria de conversar mais com Clarice. Deitou-se e deixou as janelas abertas. Pelo corredor de vento entravam também os sons da rua e os arrulhos noturnos dos ninhos urbanos das centenas de pombos que habitavam a região. Na manhã seguinte, enquanto se servia de café fresco, escutou a batida tri-executada a quebrar a monotonia da alvorada. Tec-tec-tec…

– Bom dia, Clarice! Que felicidade em rever-te, ó voz das boas novas! O que trazes hoje em teu seio da sabedoria?

– Você não perdeu tempo, hein!? Diga-me, o que estava mais gostoso, os petiscos ou o banquete de idéias?

– Ora, os acepipes estavam perfeitos, por mais simples que fossem. Mas, admito, relacionar-me com os amigos e misturar as opiniões foi fantástico. Ontem, é bom que eu diga, deixei de assistir a toda a faixa noturna da programação televisiva para confraternizar. Nem de longe me arrependo, pelo contrário, sinto-me mais jovem até! Claro que alguns alimentam achismos e considerações supérfluas sobre as coisas e..

– Deixe disso, homem! O que é dialogar se não suportar e ser suportado? – interveio uma pomba eloquente.

– Tens razão.

– Quem sabe agora tome coragem para aquilo que já é hora de acontecer.

– E a que te referes? A metafísica? Os diálogos com Deus e o significado da vida? Devemos discorrer sobre a grande saúde a qual o homem almeja?

– Rai.

– Rai? Engoliste uma sílaba, ó passarinha? Raios de sol?

– Sim, engoli. Railúcia, seu grande amor.

Aquela frase aterrorizou o velho Boni, que num tropeço derramou o café sobre as coxas.

– Qual absurdo proferes! De onde tiraste tal sandice?

– Sandice é desejar uma mulher tão bonita e dedicada como a Rai e não ter a coragem de se declarar, pela simples relação hierárquica patrão-empregada. O amor tem razões que a própria razão desconhece, meu bom homem. Dispense esse trololó e case-se enquanto há tempo. E o tempo urge, enquanto o leão, ainda, ruge! – decretou, simbolicamente, ao se auto-defenestrar.

– Railúcia! Venha já aqui! – gritou um Bonifácio espavorido.

– Sim, meu patrão, o que houve?

– Andaste a falar coisas por aí? Tens algo a me dizer?

– Não compreendo, Marinho. Sobre o que, meu senhor, sobre o que especificamente se refere com essa pergunta?

– Deixa para lá, acho que estou meio maluco. Queres casar comigo? – propôs um absolutamente nada romântico Bonifácio Marinho com a voz embargada.

– Oxalá, meu pai! Tenha pena de nós, tenha dó! Quero sim!

À parte a exaltação afro-religiosa, Boni considerava-se pleno. Pudera! Em dois dias estavam no cartório de registro civil para oficializar a união. Marido e mulher, rumaram ao apartamento para uma recepção modesta com os mais chegados. Na hora de cortar o bolo, Clarice voou pelo recinto e pousou no ombro esquerdo do noivo. Os convidados se derreteram com a imagem dos pombinhos agraciados pela pomba branca da santa Trindade. A foto ficou uma beleza. Clarice cochichou em seu ouvido:

– Meio maluco você é, não acha? Dando corda a uma pomba! – e se foi voando janela afora.

Boni celebrou com entusiasmo. No dia seguinte, deu falta da visita de sua amiga. Lamentou por toda a manhã a ausência de fiel confidente. Estava doido para contar sobre a noite nupcial e sua performance inacreditavelmente soberana sob os lençóis. Sua agora esposa Railúcia Marinho sorria à toa. Disse que tinha uma surpresa para o almoço. Serviu os pratos e pôs à mesa um assado.

– O que é que preparaste para nós neste dia primeiro do resto de nossas vidas, meu benzinho?

– Pomba, meu amor! De um criador que conheço. Há de adorar o sabor e a maciez de sua carne tenra.

Bonifácio bem que tentou mas não pôde evitar a dúvida. Seria, por vias da mais selvagem coincidência do mundo, ser aquela pomba a sua querida amiguinha? Sua sábia conselheira havia se tornado a sua refeição? Depois de alimentar-se da fonte abundante de perspicácia, haveria de ingerir também sua matéria? Seria tudo aquilo um sonho? Estaria ele variando das bolas, coisa de velho? Olhou insistentemente para a janela na esperança que Clarice surgisse a cutucar o vidro com o bico afiado. Nada. Sorriu com lábios desesperados para sua esposa que, sem perceber nada, ainda apresentou mais um complemento para o prato:

– E essa é a cabidela, um molho feito com o sangue da pomba, uma iguaria!

A essa altura do campeonato Boni suava frio, tentando disfarçar a reação e não deixar com que sua amada percebesse o nervosismo. Como Jesus Cristo, comeria sua carne e beberia seu sangue, como que em ato memorial? As cortinas todas do apartamento estavam abertas e ele percebia, paranóia ou não, uma revoada de pombos. Estariam todos possuídos por um espírito vingativo? Railúcia saboreava e expressava o prazer a cada garfada:

– Mmmmm que delícia! Não tem fome alguma, meu bem?

– Ainda estou nutrido do amor que me serviste sobre o leito, ó rainha de fogo.

– Ah, como você é perfeito!

A recém casada dona de casa devorava as asas e o peito branco da pomba enquanto balançava a cabeça. Na vitrola tocava um disco de Frank Sinatra e na ponta da mesa continuava o senhor Bonifácio a resistir ao primeiro toque no prato que fora servido. Bastava que uma pomba branca pousasse em sua janela e o alívio seria imediato. Mas ele não poderia começar, a pomba continuava sumida.

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