Navalha, tesoura e lágrimas

Tão logo o comandante comunicou que a tripulação deveria se preparar para o pouso, trouxe meu encosto de volta à posição inicial, recolhi a bandeja frontal e fiquei a observar o aproximar de luzes que iluminavam a janela sobre a asa direita daquele Boeing 737-300. Uma vez aterrado assisti a reprise infinita, aquele desfile dos burros esforçados que, incansáveis, levantam-se de seus assentos ao menor sinal de parada completa da aeronave, permanecendo em pé por um longo período de tempo, espremidos no vão estreito que comporta, tal qual a um abatedouro, a manada pouco perspicaz de um gado consumido pela ansiedade crônica. Distraído por aquele espetáculo quase me esqueci da primordial preocupação que ocupava minha mente: onde poderia cortar o cabelo? Recomendado por um amigo, dirigi-me ao Salão Modelo, situado nos confins do Jardim Pinheiros, um bairro por mim até então desconhecido. Eu havia solicitado que me indicado fosse um estabelecimento que aliasse bom preço com qualidade no serviço, nada de absurdo para um justo cidadão cumpridor de seus deveres e de cabelo deveras comprido. Adentrei o modesto ambiente e saudei os presentes. Convoquei que o tal Carlão se apresentasse, pois cá se apresentava o emissário de uma amizade que lhe indicara com louros de confiança. Um senhor de cabelos grisalhos nas laterais, calvo na avenida que se constituía na parte central da cabeça, bigode a contornar os lábios e munido do maior pente que eu já vi se identificou.

Ali estavam, além do Carlão, uma funcionária de nome Patrícia, seu neto que também é cabeleireiro, sua esposa e uma cliente, senhora de traços nipônicos que, segundo ela, já levava quatro meses sem dar as caras no salão. Findo o serviço nas linhas quadradas dos cabelos orientais, fui convidado ao assento do fígaro. Munido de sua máquina na lâmina número três, logo se pôs a aparar os flancos da minha cabeça e a destilar sua conversa melodiosa sobre a juventude, sobre os amigos e a histórica influência da qual gozava benefícios no bairro onde vivia. Carlão ia se avolumando nos relatos de conquistas junto a fiscais da prefeitura, clientes e vizinhos. Boa praça, com cordialidade sempre conseguia favores e os retribuía, tudo explicado pela voz acentuada por um sotaque tipicamente paulistano do século passado, uma mistura da boemia de Adoniran Barbosa com a narração do Golias. A cada vírgula contemporizadora de seus causos, interpelava retoricamente usando uma das expressões mais divertidas do vocabulário démodé empregado quando não se quer nomear o interlocutor:

— O que eu podia fazer, xará?

À medida que ia se afeiçoando da minha atenção ouvidora, mais história surgia e menos cabelo havia a cobrir o crânio. Não obstante os feitos fossem muito agradáveis de se tomar conhecimento, a habilidade profissional do bom velhinho era inversamente proporcional ao seu carisma. Por dentro, resiliente e grão-mestre na arte de amar o destino, via a lambança se consumar sem que nada pudesse fazer. Em uma fração de descuido de atenção, permiti que Carlão anavalhasse a minha barba. Em choque, ainda sem reação, beirei a convulsão ao, uma vez mais, assistir sua corajosa tesoura ferir o meu bigode. O ódio me havia paralisado. Agradeci esfuziante ao fim de uma hora e meia de sessão. Sua funcionária ria  e fazia gozação com o mais longo atendimento já visto, dizendo ser aquele uma sessão de terapia. Paguei e fui embora na certeza de que os pêlos crescerão, sem guardar mágoa alguma, afinal, aquele era um autêntico personagem da paulicéia desvairada e, eu, o que podia fazer, xará?

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