Quarentona

Hoje já se soma o centésimo oitavo dia da mais absoluta reclusão, o delirante
calabouço onde está metida a raça humana, ou sua maioria. Talvez se argumente, até,
que apenas a minoria, na contramão do que recomenda a Organização Mundial de
Saúde, é que respeita a quarentena forçosa. Aprendemos o significado da palavra
pandemia muito recentemente, tamanha era a falta de aplicação do termo nos tempos
recentes, ao menos na era que correspondente a esta geração que lida com um
problema sem precedentes e derrama, em uma sucessão de opiniões caudalosas,
todas as vontades que emanam do subconsciente: a necessidade de atenção,
compreensão e, última e vaidosa, a tenra ansiedade por fiéis seguidores. Refiro-me ao
termo que define a legião que escuta, concorda e obedece aos comandos de um
pastor, no melhor sentido rebanho do coletivo ovino que exercita a consciência de um
modo sub-autônomo. Conseguiram, por fim, polarizar uma questão de saúde pública.
Hoje se completa mais um dia da mais absoluta reclusão para muitos, para tantos, para
poucos, mas não para Augusto. Bastante fiel aos preceitos médicos e respeitador da
ordem social urbana, o rapaz de meia idade faz muitas perguntas a si mesmo, da hora
em que acorda à hora que se deita, principalmente nos longos e cálidos banhos que
transformam o banheiro na réplica enevoada de Londres. Dentre as suas indagações,
“o que define meia idade?” é uma delas. Aos 34 anos, ele reflete se “por um acaso 68
seria a idade toda” ou, ainda, “por que uma idade cheia há de sempre ser um número
par?” Existiria alguma maquiavélica trama dos números, “algo do Cabala” por trás disso
tudo? – é outro indelével questionamento do atormentado pensar característico de
Augusto. Dias atrás ele ouviu o prosear desavisado de duas pessoas na fila do
supermercado:

-Menina, você ouviu dizer sobre o Bill Gates?

-Dizem que ele criou a doença para depois ganhar dinheiro com a vacina
obrigatória, né?

-E ele é uma das figuras encarnadas do anticristo, esse homem asqueroso

-Sim, maçom e illuminati, um dos maiores inimigos do povo.

Uma conversa entre duas pessoas e ouvida no ínterim por uma terceira só comprova
que, sim, estavam todos a menos de dois metros de distância. Augusto bem sabe que
a informática, seu desenvolvimento e lancinantes avanços geométricos foram possíveis
em enorme parcela graças ao réu das acusações das duas comadres, mas o jovem se
importa pouco com Bill e muito com a informação, a qual ele considera importante
independentemente se a fonte é confiável ou não. Toda informação é válida aos seus
olhos e ouvidos, pois do que ele gosta é de se pôr a pensar, mesmo que seja em vão e
baseado em razões medíocres. Instigado pela promotoria popular e suas ácidas
opiniões, Augustinho (como é conhecido na boca pequena) tão logo chegou em casa e
passou a pesquisar o assunto na tela do seu PC. Encontrou, inclusive, que Bill Gates é

o líder de um plano mundial de estabelecimento de uma nova ordem. Cansado,
programou mais uma atualização do Windows e foi dormir.
De tanto dar asas aos processos desatentos que estimulam a sua mente, Guto (como
chama a mamãe), esqueceu da necessidade de permanecer dentro de casa já na
segunda semana de confinamento, quando passou a frequentar assiduamente o
mercado. Ainda que nada esteja faltando em casa, é a sua melhor desculpa para sair e
farejar notícias por aí.
Em frente à varanda de uma ampla fachada residencial onde vive com dona Maria, sua
mãe, Benedito, o patriarca e Feijuca, a cachorra vira-latas, há uma bela floresta de
eucaliptos. As copas das árvores se movimentam com o vento de inverno e espalham o
agradável aroma que, dizem, limpa os pulmões de maneira sem igual. “Será por isso
que as saunas tem aquele cheiro de eucalipto? A cura para a tuberculose poderia estar
em uma planta tão inocente?” – assim se pergunta o autodidata e presidente da Cantina
Amadora de Comes Experimentais Trans Americanos (C.A.C.E.T.A.). Augusto é dado a
cozinhar e reúne amigos que adoram explorar acepipes de todo o território americano,
muito embora, comumente, costumam considerar por América apenas os Estados
Unidos e, vez ou outra, o México. Ainda que possa parecer que a sigla do grupo cause
constrangimentos, até hoje os membros apenas se desentenderam devido ao T de
Trans, mesmo Gugu (como é conhecido entre os convivas) tendo explicado o caráter
geográfico de um grupo que reverencia a transnacionalidade que representa todo o
continente americano. Eles não são de engolir qualquer coisa, ainda mais uma coisa
grande como essa. “Trans o que? Você é comunista, Gugu?”- assim a matéria foi
contestada por um dos membros e está, no prazo de uma semana, em votação no
grupo.
Ontem foi um divisor de águas nessa sanha ousada de desafiar a recomendação do
Ministério da Saúde. Movido por informes oriundos de uma central de inteligência
avançada sediada em um aplicativo de mensagens, Gus (como o conhecem no mundo
virtual) recebeu a notícia de que um certo grupo de pesquisadores faria uma palestra
sobre as verdades do COVID-19 que estariam, supostamente, sendo escondidas pela
dita imprensa convencional. Caminhando por entre os eucaliptos meneantes, lá se foi o
intrépido rapazola. Ao chegar, encontrou muita animação regada a cachorros-quentes
e tubaína morna, promovida generosamente pela Associação Soberana Nova Ordem
Social (A.S.N.O.S.), que se opõe aos ultrajantes homens e mulheres – em geral
homens – que maculam os bons costumes das famílias de bem. Havia muito algodão
doce, por sua parte uma cortesia da Associação Nacional de Terraplanistas
Abençoados (A.N.T.A.), uma derivação inovadora do terraplanismo com a Igreja Nativa
Revolucionária Imaculada das Transcrições Alternativas (I.N.R.I.T.A.). Em determinado
momento da conversa informal, os líderes messiânicos pediram que todos os presentes

retirassem suas máscaras faciais e, bradando o lema ˜máscaras nunca mais, COVID é
o Satanás”, abraçassem uns aos outros. Empolgado como nunca desde o fatídico 7×1
contra a Alemanha na Copa do Mundo de 2014, Augusto se levantou da cadeira de
plástico, simbolicamente retirou a proteção do rosto e, já com braços abertos, mas
antes que pudesse entoar o grito de guerra, ouviu logo ao pé do ouvido em estridentes
decibéis:

– AUGUSTO, SEU FILHO DA PUTA!

Infiltradas na comitiva negacionista, lá estavam algumas dezenas de mulheres
membras da Xamânica Intervenção Imperativa Terrena Autônoma (X.I.I.T.A.), frente
aguerrida do neofeminismo combatente em prol da terra e da liberdade. Ali estavam
para o enfrentamento e uma delas era vizinha da família do mancebo, a quem sem
demora atacou com golpes desferidos a esmo e também em grupo, sem a mais remota
chance de defesa. A sua algoz foi uma mulher de nome Camila, um certo alguém de 40
anos a quem Augusto se referia por madura, dada não só a idade como a simpatia que
nutre (ela) pelo regime governamental da Venezuela. Como era de se esperar, em
seus exercícios reflexivos, ele divagava “se aos 40 anos uma mulher é madura, aos 20
ela ainda está verde e aos 60 podre?” com bastante freqüência. Ontem, não teve
tempo. Poucos segundos em batalha e ele já foi à lona. Ao desmaiar, feito um porco
abatido, não conheceu misericórdia. Mais duas ou três guerreiras agarraram pernas,
braços e cabelos e o arrastaram floresta adentro. Até agora, nenhum sinal do
desaparecido. Dizem que está morto, assim como dizem, vejam só a audácia, que as
referidas moças o sequestraram para que fosse transformado em escravo sexual para
práticas pagãs de uso e abuso da carne pelo sexo feminino.
Por golpe do destino – ou da quarentona – o filho da puta (como é conhecido entre as
manas) corre o risco de virar uma reles lenda urbana digital.

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