O sótão da alma

O silêncio impera durante o tempo que passo sentado nas escadarias do centro da cidade, um campo fértil para o concreto, para os passos compenetrados de transeuntes afoitos  e para todo o mármore gelado que abriga os prédios outrora glamurosos e que hoje exibem a decadência física que se equivale ao desmoronamento de valores éticos que contamina a nação. Tateio meu rosto e sinto a barba grande, oleosa. Ainda que não exerça fascínio quanto a sua beleza, os longos fios me servem como uma espécie de cachecol natural, evitando que resfriados inoportunos dificultem ainda mais a vida moribunda. Escuto o tilintar de moedas bem próximo a mim, rompendo o estado inerte da minha meditação forçada. Ao receber esmola, sempre retribuo com “muito obrigado, Deus o acompanhe”. Há uma parcela falsa na frase, ainda que doa admitir, pois, por mais que deseje o bem a quem o faça a mim, lá no fundo não recomendo a companhia do divino. Esse Deus de nós todos tem sido deveras permissivo com as durezas do mundo. Seja como for, os acontecimentos que permearam meu caminho e o culminar dessa existência combalida soterraram toda a fé e a chama que tive pela vontade de viver. Já fui uma árvore frondosa, de encantos ostensivos e perfume irrecusável, doadora de frutos polpudos e com as raízes alongadas às profundezas. Hoje sou mendigo, reles homem sem espírito e sem apetite pelo porvir, um renegado cujo coração bate por obrigação, condenado a coexistir agasalhado em paredes internas, sem a distração das imagens absorvidas pela íris e esmagado por uma onda caudalosa de memórias que flutuam em um cérebro potente. Vivo, dentro de mim, em uma gruta escura e sem eco, onde proclamo um amor perdido que jamais interrompeu a marcha da distância.

Sou cego dos olhos, desvairado de alma.

Logo pela manhã, sento-me nos degraus iniciais de uma escada que liga a calçada a não sei onde. Cheguei até ali graças aos companheiros de sarjeta. Também não me interessa. Posiciono meu chapéu puído entre as pernas e aguardo o roçar do níquel que inevitavelmente vem. Ficamos eu, Alfredo e João sentados um ao lado do outro, em vitrine aos transeuntes impassíveis aos nossos rostos desfigurados. João sempre traz o seu violão, que além de muito agradável é também um atrativo a mais para nos render uns vinténs. Causa-me grande alegria e uma pitada de tédio, vez ou outra. Dedilha notas clássicas com tanta destreza que fica evidente o passado erudito que carrega em suas mãos. No entanto, o Alzheimer faz com que o repertório se torne cada vez mais limitado, coitado. Antes, era um recital todo. Hoje, duas músicas no máximo. Éramos quatro, nós três mais o Mathias. Acontece que no último inverno o pulmão tuberculoso do velho companheiro sucumbiu de vez. Após mais uma longa sessão de risos com suas piadas, adormecemos. Ele era tão bom na arte do humor que se tornou algo compulsivo. Pregava peça na mãe, armava bagunça para a própria esposa e ria, ria como se nos estertores de um riso desesperado pudesse alcançar a salvação. Veio o divórcio e, então, a visita de um oficial de justiça o intimando para os trâmites processuais no fórum municipal. Mathias não só negou a identidade como recebeu o funcionário público em uma túnica de linho, afirmando ser Ali Para Baba, um mítico guru que embora não conhecesse aquele a quem o oficial se referia, prontificava-se a usar seus poderes para encontrá-lo. A patranha lhe rendeu uma acusação por falsidade ideológica e, desse modo, foi morar nas ruas para fugir das consequências. Na nossa útima noite juntos ele estava mais quieto, o fôlego não o permitia ser o centro das atenções. Na manhã seguinte, levantamo-nos para ir aos nossos postos. O Mathias não. Arquejou na reclusão de seus sonhos, no profundo sono que o seqüestrou de nosso convívio. Não nos despedimos como seria justo.

Moramos juntos, os três, em um barraco honesto: frio, úmido e malcheiroso, sem inspirar a ilusão de ser uma morada agradável. Essa família de amigos conheci quando perdi a visão, há oito anos, em um incêndio.

Encontrava-me, então, em uma favela. Deitei e me pus a observar pela janela o tom camaleônico das cores no céu abastado de estrelas. Na linha horizontal via um azul tenro, que escurecia verticalmente até o teto do mundo, formando um negro matiz que, penso eu, deve ser para esconder tantos mistérios na falta de luz. Peguei no sono com uma brisa pacífica que soprava e massageava o meu rosto. Horas depois, despertado por um grito horrível, abri os olhos e vi muita fumaça pelo ar. Antes que me levantasse e tomasse noção da realidade, o forro em brasa do meu palacete veio abaixo, e meus globos oculares queimaram, verteram suas últimas visões em um mar de fogo infernal, secular e doloroso. No incêndio, foi-se tudo o que tinha e mais um pouco.

Passado um tempo no hospital, saí sem rumo e agora com duas gazes nos olhos, única aquisição em tempos de perda total. Ao menos, não havia contraído dívida alguma com o tratamento hospitalar, uma vez que o sistema de saúde era gratuito, público e universal. Ali, vestidos de branco e por trás das máscaras, tratavam até de vagabundos sem custo nenhum, um colosso! Ao agradecer e despedir das enfermeiras, com passos lentos e cautelosos e sem a ajuda de nenhum braço amigo, pisei prédio afora e fui tomado por um lancinante suspiro de reflexão. Foi quando, somente dessa vez e nunca mais, coloquei-me a lembrar da vida que tive e a qual renunciei, uma vida infindável de conforto. Nascido, criado e bem amado no seio de uma família serena, com pai, mãe e nenhum irmão, minha companhia nesta época era a mais bela de todas as donzelas do mundo, a minha doce Catarina. Ela nos acompanhava em todos os momentos e meus pais já a consideravam, como sogros tradicionais que eram, uma segunda filha. Levávamos um relacionamento harmonioso, que se abalou pela morte de meu pai em um acidente automobilístico. Sofri um golpe forte com a separação do patriarca. Mamãe ainda agüentou alguns anos demonstrando controlar a dor incansável, mas não resistiu com mente forte. Padeceu na loucura e induziu a própria morte. Vi-me sozinho pela primeira vez.

Catarina, que me apoiara um tanto quando da perda paterna, começou a transparecer estranhos sinais de distanciamento, de falta de carinho. Ah, logo ela! Como pôde, minha querida, fenecer em você um amor desmedido, um bem querer tão sincero?

Catarina diminuiu aos poucos a atenção, um certo desmame de amor tal qual ao de um viciado em fármacos que necessita se livrar da droga. Restringe-se a dose gradativamente, até que o dependente se vê livre do consumo habitual. Comigo foi o inverso. Esquivando-se de minhas investidas e mostrando uma naturalidade trágica, ela me conduziu à areia movediça da paixão, que por completo me tragou e da qual jamais me salvarei, sendo o meu destino morrer afogado na lama. O meu bem se foi sem se despedir, assim como todas as outras perdas que margeiam minha trilha. Apenas mudou de cidade e não deixou rastro, sem dar-me o direito de explicação alguma. Vi-me, de novo, sozinho e abandonado.

Quando da morte de meus pais, cri passar pelo purgatório. Agora não me restava dúvida, tinha descido ao reino da maldita discordância, onde colocariam meu dorso a arder em chibata de fogo a fim de tornar-me inóspito, um reduto físico triste e amaldiçoado. Essa descida ao submundo do sofrimento destituiu o pouco que restava dos meus domínios cognitivos. Não resisti o bastante e lancei-me a viver nas ruas, com um pouco do dinheiro no bolso e muito desorientado após grande ingestão de calmantes. Droguei-me e desejei a morte. Não bastavam as pílulas sintéticas, pois o que introduzia a angústia eram as memórias, e essas galopavam no amargor de minha boca, incessantemente.

Vaguei pelo vale seco do drama urbano, com seus becos agressivos e sujos, repletos de homens abreviados e rastejantes. Definia-me bem como a própria peçonha social, o vulgar rompimento da miséria que se comporta como bactéria inata em qualquer ambiente propício à vida. Tornei-me um náufrago à deriva, não podia orientar a minha direção no oceano do destino, apenas aguardava o guiar da maré. Alimentava-me de alguns tragos e ardia o meu pensar em noites infinitas, sempre querendo Catarina. Sonhava (ou delirava em ilusões visuais) recorrentemente com uma garotinha loira de bochechas rosadas, trajando um vestido azul celeste e que vinha em minha direção saltitando pelas ruas, acompanhando os meus passos cambaleantes. Quanto mais eu andava, mais ela se aproximava cantarolando com sua voz angelical. Ofegante pela fuga da figura pueril, encostava o corpo praguejado na pilastra renascentista de um prédio qualquer e então ela me alcançava. Tomava-me pelas mãos e dizia para segui-la, puxando firmemente os meus dedos. Inundava-me então um pavor extenso e repentino, que me limitava a respiração e, arfante, livrava-me do sono. Olhava ao meu redor e só via os mesmos cantos escuros de sempre, os mesmos uivos e a mesma solidão. A menininha tão linda jamais conseguira me levar aonde desejava.

De quando comecei a arquitetar minha própria decadência até o dia em que perdi a visão os anos passaram por mim famintos, alimentando-se de minhas virtudes e roubando um tempo precioso que não volta mais. Hoje tenho restrições reais quanto a minha funcionalidade, por não enxergar. Porém, antes do fato terrível, cruzei décadas sem, em momento algum, render graças por olhos sadios e que não desistiam de mostrar o belo. A última visão que tenho do mundo é a do céu negro e suas constelações fúlgidas, um céu que se exibia a mim e que certamente também o fazia a Catarina, um ser sublime, embora de ímpeto tão cruel.

A jornada que levo junto aos meus parceiros sentado em escadarias do centro da cidade é, na mais absoluta certeza, torturante e monótona. Agacho-me nos quadris e, sem proferir nenhuma palavra, apenas segurando o chapéu entre as pernas, ergo a cabeça em direção ao horizonte e ali permaneço até a hora em que nos dirigimos aos nossos barracos. Imóvel, com os lábios pressionando uns aos outros, tento em vão silenciar também as minhas reflexões. Perto de onde nos estabelecemos há alguma igreja. Ouço cânticos e melodia sacra vagando pelo ar. Pode ser, aliás, que a escadaria onde me aconchego leva até os bastiões e portões nobres de uma basílica católica e, dali, emane a música que me agrada. Estabeleço a partir daí um conflito bárbaro em meus pensamentos. Divago sobre a morte que me aguarda, sobre a memória de meus queridos pais, a saudade, a Catarina. E ao passo de pensamentos tão depressivos, eleva-me o ânimo a sonoridade que provém do templo próximo. Quão bons são os anjos que devem habitar este mundo e proteger as almas esquecidas. E talvez ainda eu não esteja tão esquecido para merecer a proteção de um deles. Deus deve ter uma predileção especial pelos miseráveis, fez vários deles. “Hei de sofrer”, pensava eu. E estava certo.

Repetindo o trivial, encontrava-me recostado em pedras geladas com meu chapéu em punho. O Sol já tinha abaixado e, creio, eram quatro horas da tarde. Ouvia João e Alfredo conversarem ao meu lado algo sobre futebol, para variar. Os dois, saudosistas como todo homem velho, relembram os antigos jogadores e os comparam com os atuais. Não há necessidade de comentar o massacre verbal que se desenrola. São daquele tipo que gosta de resgatar os tempos antigos e afirmar que “no meu tempo que era bom…”. Mas, alheio aos diálogos fanáticos dos dois, percebi a aproximação de uma pessoa. Momentos antes, pude escutar um carro estacionar calmamente em minha frente. Desferiu alguns passos até se aproximar e me disse, com tom sereno, “uma ajuda, senhor” ao depositar uma quantia no meu chapéu. Como já contei antes, respondi muito obrigado, Deus a acompanhe. Ouvi mais alguns toques da passada elegante da mulher bondosa, que certamente se equilibrava sobre um salto fino. Elegância é uma qualidade que se enxerga mesmo sem se ver. A voz aveludada era ornada por um perfume capaz de fazer os jasmins fecharem suas pétalas em sinal de timidez. Ao partir, escutei o arrancar parcimonioso do carro. Meus dois companheiros aproximaram-se. Falaram-me, e eu sequer me abalei, que ela deixara uma quantia que valeria por uma semana de arrecadação. Fossem meus olhos vivos, brilhariam com a notícia. Senti-me feliz de uma maneira reservada. Seria aquela mulher Catarina? Teria ela me encontrado e tentado se redimir? Voltaria e cuidaria de mim? Será que ela, num rompante de caridade, chegaria ao ponto de me levar para morar em sua casa? Estaria solteira até hoje? Será que nunca me esqueceu? Oh, mulher bondosa, quantos mistérios em seu frescor, quantas lendas inspirou em minha mente doída!

Uma euforia toda se apoderou do grupo e sentíamos um exultante sucesso com aquela esmola generosa. Incontrolavelmente tateava o bolso à altura do peito onde guardei as cédulas de dinheiro limpo. Não quis saber qual era o montante, mas no intervalo de minutos tornava a apalpar o que seria o meu tesouro. A felicidade era tamanha que cheguei a balbuciar músicas que fluíam de uma boca costumeiramente silenciosa. Comprei pão com mortadela para nós todos e voltei ao barracão. Estranhamente meus companheiros se converteram em um silêncio, ainda que a minha alegria fosse esfuziante. Qual absurdo sucedeu que eu deveria tanto me espantar? Adormeci sem dar maior atenção ao clima de pesar que pairou naquela morada.

O dia amanheceu e, ao buscar minha fortuna, notei que o bolso estava vazio. Roubaram-me! No ar fétido da pocilga humana, sentia os olores de vinho barato e frango assado. Os bandidos removeram meu dinheiro, chafurdaram em sua própria ganância e gozaram dos prazeres proibidos. Ao esbravejar contra aquele atentado, uma voz feminina resmungou pedindo silêncio. Além do banquete e da bebedeira, contrataram também uma prostituta. A orgia se fez, aos moldes de Baco. Os rapazes haviam ido longe demais. Seguindo a tradição mitológica do bacanal, resolvi dar cabo ao componente romano daquela tragédia. Aproveitando a embriaguez e estado indefeso, como Nero ateei fogo nas madeiras. Homens simples, puros em espírito e de ambições também simplórias. Eu, um ressentido irascível.Sentei-me na calçada do outro lado da rua. Ardiam e gritavam ao passo que a vizinhança esperava a chegada do corpo de bombeiros. Era impossível conter aquele fogaréu. Por ser cego, suspeita nenhuma caiu sobre mim.
Metade do dia já havia se prolongado e me contive a esperar que tudo se acalmasse.

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