Resgate

Estávamos, Larissa e eu, a desfrutar daqueles dias atemporais que se dão em uma ilha. Um pouco antes do sol se erguer surge a sinfonia dos pássaros a duelar com cantos misteriosos. O que será que aquelas aves dizem com os assobios ritmados? Papeiam? Insultam uns aos outros? Cortejam as passarinhas exuberantes? Seja como for, enfeitam o despertar de quem tem o privilégio de viver em uma ilha.

Decidimos espontaneamente que, naquele dia, faríamos merecida trilha até uma área de difícil acesso da ilha de Koh Tao, chamada Mango Bay. Aquela baía possuía muitas mangueiras, por isso o nome? Não. A manga é uma fruta muito popular na Tailândia, mas ainda me é desconhecido o motivo da escolha do apelido. Pode-se ir até lá de barco ou por uma caminho no mato que exige a parada da moto bem antes de se chegar ao destino final. A vista é incrível e vale todo o esforço da caminhada íngrime.

Chegamos bem cansados e logo me preparei para cair na água e garimpar o fundo daquela praia. Mango Bay, geralmente, tem uma visibilidade muito boa e a prática de snorkel por lá é recompensadora. E depois de uma hora morro abaixo em um terreno bastante acidentado, carregando equipamentos de mergulho e fotografia, a água salgada cura de fora pra dentro e vice-versa.

Acontece que, para a nossa surpresa, ao nos aproximarmos da água, notamos um senhor esbaforido, sozinho, tentando se equilibrar por cima de algumas pedras. Em uma mão tinha os tênis e na outra uma sacola plástica com seus pertences. Sou mergulhador profissional e muito treinado a reconhecer indivíduos sob stress na água, logo foi muito fácil bater o olho nele e saber que as coisas não andavam bem por ali.

Deixei meus equipamentos na pedra e pedi para Larissa esperar. Fui de encontro a ele e perguntei se tudo estava bem. Ele disse que sim, mas que tinha tentado andar pelas rochas e, naquele ponto, ficou preso sem conseguir se movimentar. Era britânico o meu novo amigo e, tempero especial para o pânico, tinha metade do seu corpo dentro da água. Pedi que ele me entregasse todas as suas coisas e que aguardasse a fim de que eu as colocasse sobre um local seco e seguro para que, finalmente, o auxiliasse a sair da enrascada. Ele respirou aliviado.

Realmente não era brincadeira a situação do sexagenário recém aposentado da terra da rainha: descera todo o amontoado rochoso que separa o único hotel da baía e a água se agachando e esgueirando de um bloco ao outro para, no fim, descobrir que não seria possível voltar. Ele viajava sozinho e, exatamente por isso, não dispunha de ninguém para o resgate. Levei todo o seu kit de aventureiro desastroso para a Larissa e pedi que ela rumasse de volta ao deck do hotel. Voltei e o encorajei a colocar sua máscara de mergulho e voltar pelo mar, o que seria não só mais fácil como relaxante.

Escoltei aquele ancião ao passo que observava como os peixes vinham até ele como que dizendo “está tudo tranquilo, meu amigo!” Chegamos a escada do hotel e subimos ao terreno seco. Suas pernas estavam tremendo e ele aparentava, além do cansaço, muita gratidão pelo salvamento.

Fez uma questão imensa de pagar um almoço para nós e, muito embora eu quisesse ficar de barriga vazia para entrar na água, aceitei por diplomacia. Seu nome era James e, além de camarões, tomamos suco de manga (claro!).

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