Uma noite dura, apenas…

… e a ideia do suicídio conforta o notívago.

Diga-me como você quer morrer e eu digo quem você é.

O dia de hoje, se tivesse trilha sonora, seria acompanhado por um saxofone deprimente do estilo Kenny G. Aqueles acordes aveludados que na madrugada são executados em bares de beira de estrada. No Brasil, a bebida para acompanhar essa melancolia seria um rabo de galo, o negroni tupiniquim.

A história do Daniel, que contei no último post, agiu em mim como a peçonha de uma serpente. Aos poucos foi se alastrando pelo meu sistema sanguíneo e agora, ao cair da escuridão, sinto-me sufocado e acometido por convulsões do espírito.

Lembro-me das suas palavras ao telefone jurando o balaço na testa de sua ex-mulher, dois filhos e cachorro. Seguida pela sua própria. Disse ele:

– vou atirar em cada um deles com um sorriso no rosto. Depois vou me matar também com um sorriso estampado. Estou farto, Aquiles, cheguei ao meu limite!

E desligou na minha cara, como se a transmissão digital fosse a minha versão do assassinato. Que tamanha dor se abateu em mim.

Pus-me a chamar por Roy, meu amigo maior, e pedi que corresse ao encontro de Daniel. Roguei que mantivesse distância primeiro porque, nunca se sabe, o fraticida em potencial poderia estar descontrolado a ponto de usar a(s) arma(s) contra ele próprio. Felizmente não estava e, ao contata-los meia hora depois, ouvia a voz amansada de Daniel.

Quais desesperos levam um indivíduo a desejar uma saída tão desonrosa da vida? Qual é o ponto final que conclui um raciocínio de que a vida não tem mais vantagem alguma em ser vivida?

Não tenho essas respostas e ao mesmo tempo fico muito aliviado de ter ajudado, no dia de hoje, a desmontar um plano tão abominável. Não sou ativista pró-vida e tampouco advogado do tal “dom de estar vivo”.

Sou, em suma, fascinado pela mente e suas nuances ora fantásticas, ora bisonhas, um emaranhado de conexões e fluxos de informações que culminam em comportamentos indeléveis.

Mais uma noite fria. Que Daniel não se escore na ideia da morte.

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