Os rótulos da sociedade moderna

São muitos. O kit padrão do cidadão adequado aos moldes da cultura estabelecida pelas redes sociais é composto por

  • #gratidão
  • #resiliência
  • #fé
  • #liberdade

Adicione uma foto ilustrativa de uma pose motivante no modo retrato, um belo cenário e, ilusão recorrente, tem-se uma personalidade ou caráter formado.

Absolutamente nada contra esse processo mental de se auto-afirmar em uma selva tão hostil como é a realidade na qual todos nós vivemos através de hashtags. Vestir esses conceitos como se fossem roupas novas ajuda muito na auto-estima mas, detalhe despercebido por muitos, a pele por baixo das vestes continua crua e independente das estampas que se exibe.

Sabe aquele amigo que tem barba grande e bem cuidada, brincos de argola e tatuagens por todo o corpo, sempre bem vestido com estilo hipster? Daí ele abre a boca e você enxerga alguém infanto-juvenil travestido naquela pinta toda, como se fosse aquilo que se via mas não é.

Gratidão pelo o que? Por tudo, “só tenho a agradecer e nada a pedir”, dizem. Soa obediência e submissão aos meus ouvidos ou, ainda, profundo comportamento influenciável. Tudo aquilo que o universo me traz, diz a prudência da alma, não só aceito como amo e sigo em frente, pois não é uma fagulha dos instantes cósmicos capaz de incendiar a minha própria paz. Por me desagradar do fogo indesejado piso nessa centelha e a apago, maldizendo o infortúnio de um possível incêndio e não sendo nem um pouco grato por algo indesejado. No entanto, também não me custa a serenidade.

Têm fé e confiam tudo nas mãos de uma força superior que está no comando. A isso se pode chamar de vontade de não saber a verdade. Se outra pessoa está no comando, e não eu mesmo, quem sou? Coadjuvante da minha própria existência? Consultor? Expectador?

Liberdade querem. Ostentam serem livres. Maquiam os olhos com a sombra da liberdade sem que, efetivamente, a desfrutem. Amam a propaganda porque, como quereria Goebbels, uma mentira repetida mil vezes se torna verdade.

Resilientes são eles e elas. Vangloriam-se de tudo suportar e manterem-se os mesmos. E isso é fantástico. Mas existe algo além da resiliência e robustez e isso se chama anti-fragilidade.

Quando se apanha, divergindo das escrituras, não é sensato dar o outro lado do rosto para continuar a ser surrado. Pelo contrário, sem lamentos, enriquece-se a vontade de resistência e se inicia, então, a preparação futura. O corpo se adapta, os músculos se endurecem e o vigor pulsa vibrante.

O anti-frágil tem gosto pela vitória e indiferença pela dor, não se acostuma nem se acomoda, não se mantém o mesmo nem anda com os coitados.

Seu espírito animal é o lobo. O leão pode ser o rei da selva, mas nunca se viu lobos em um circo.

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