A ex do meu amigo…

… parece ser má o suficiente para lhe causar grande desagrado e tirar o tesão em viver. Eles se separaram, ela tomou a casa, os filhos e o dinheiro que tinham no banco. Não satisfeita, passou a usar o nome desse meu amigo para requisitar novos cartões de crédito, abrir empresas e tomar empréstimos. Em três meses ele foi de um nome super limpo para devedor de US$ 200.000,00.

O conheci no estado do Colorado e, enquanto dormia em sua oficina nas noites de muito frio e neve, tomei noção desse problema todo que o acometia. Daniel ia de mal a pior, com dificuldades em trabalhar porque só se concentrava em tentar limpar seus registros econômicos e provar junto à justiça que sua ex-esposa era alguém maquiavélica e desprovida de compaixão. Às vezes desfrutávamos de um dia todo juntos assistindo tv, indo ao centro recreacional de Boulder para usar a piscina e a quadra de basquete, relaxar na sauna. À noite ele tocava a sua guitarra deitada sobre as coxas como se fosse uma lira e, então, o mundo se transformava com o polimento que só a música pode dar.

Hoje Daniel chegou ao seu limite e, como já havia prometido inúmeras vezes, carregou sua escopeta calibre 12 e a pistola .40. Mataria a ex, os dois filhos traidores e a ele mesmo. Perguntei “e o seu cachorro?”, ao que ele retrucou “vou matá-lo também”.

Aquilo era dor pura, amarga, a imagem do homem derrotado que concebe a ideia de machucar o próprio fiel companheiro. Ignoro a intenção nefasta contra a família? Óbvio que não, mas contra os seus havia um imenso ódio justificável e capaz de ser compreendido.

Daniel queria justiça e, cansado de tentar por vias legais provar a fraude financeira que era vítima, decidiu por usar da pólvora. Ao tomar conhecimento da sua iminência maligna corri ao telefone. Perguntei se ele queria mesmo deixar de viver e me tirar o prazer de reencontra-lo num futuro breve; “só quero justiça, Aquiles.” Perguntei então se ele acreditava em Deus, ao que ele respondeu que sim. “Ora, meu amigo, existe a justiça dos homens e a de Deus. Confia. Acalma o peito e cria um novo caminho.”

Daniel não foi ao encontro da sua ex-família para assassina-los. Desistiu, ao menos por um instante. Eu pedi que ele não saísse da vida pela porta dos fundos. Acabei de enviar a foto acima para ele, a qual traz a mensagem:

Amigos são a maneira de Deus se desculpar pela nossa família.

O dia hoje amanheceu um cinza consistente e há muita umidade no ar. Agora tudo parece ainda mais triste e choroso. As lágrimas correm direto do céu. Que trágica a realidade daquele que perdeu tudo e tomou a decisão de se despedir por vontade própria.

Hoje não.

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