404 – Não encontrado

*** esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança é mera coincidência.***

Um aparelho de ar-condicionado antigo, remanescente dos anos 90, com seu desenho de ângulos retos, grade frontal com dois reguladores circulares dos quais um controlava a intensidade do termostato e o outro a transição entre ventilador e nevasca. Era dia, estava quente e o eletrodoméstico parecia a coisa mais viva naquele lar, um apartamento de portas brancas vazadas e paredes amarelo-hepáticas, a obra prima de alguma embriaguez mal curada que justificasse um indivíduo a ter tamanho mal gosto.

Os lençóis estavam sob a ditadura dos 21°C enquanto, na sala, um sofá moribundo amargava os pra-lá-de-30° que tornava a cidade uma filial da brasa eterna.

Para as esporádicas quebras de reclusão total do negrume que reinava na íntima habitação, a visita ao banheiro era feita na ponta dos pés, o coração em altíssima frequência e os ouvidos – característica daqueles que escutam mal – sempre a ouvir demais. Como é de costume ao cativo, uma hora ou outra o homem passa a deixar a disciplina da higiene básica e, aliada a paranoia, ir ao encontro da escova de dentes e do sabonete se torna uma epopeia.

Havia bebida, comida e um longo reinado de silêncio.

Os dias avançavam e ele mesmo já não se situava com precisão ao determinar o tempo que estivera escondido do mundo, no seu forte particular, um frágil cubículo de concreto, palco de incontáveis bacanais, banquetes e, necessário frisar, museu da péssima combinação de cores.

Acontece que, para o sujeito aprisionado, dá-se, a princípio, um luto comunicativo que o leva ao absoluto emudecimento; em seguida emerge a fase auto-comunicativa que consiste, primeiro, em pensamentos constantes entre o eu e o eu-lírico para, daí então, repetidas conversas solitárias, em voz alta e consequente transmutação das vozes na cabeça. A sequência natural da tensão craniana que se forma é a cômica – se não trágica – evolução da indisposição entre as diferentes personalidades que tomam corpo nesse imenso palco do ser sob stress psicológico.

A noite vinha de modo a amplificar os medos e regar o vaso apertado onde a angústia cresce.

Telefone celular em modo avião, campainha ignorada a todo momento e muita aflição ao ouvir passos na noite. Pelas arestas da porta de entrada se assustava toda vez que vi a luz do corredor externo acender, muito provavelmente por causa de um voo rasante de morcego e não pela presença iminente de uma ameaça terminal.

E bebia, muito e com remorso. A princípio, aguardava o sol se pôr a fim de escusar nas sombras da lua latina o impulso melancólico. Sentia como que apenas mais um bêbado da noite, um qualquer sem peso no mundo. Bebia, misturava álcoois e dormia. Passou a misturar cigarro e, num pequeno salto para um homem, logo se viu adicionando comprimidos ansiolíticos no coquetel molotov da alma.

Não só dormia quase morto como era um longo drama o processo de acordar no dia seguinte. Acordar em silêncio, acordar abatido, acordar tremendo por dentro e por fora. Jurava, em suas conversas esquizofrênicas consigo mesmo, não repetir mais aquele comportamento e, tal como uma tragédia, ainda incrementou o ato passando a já tomar seus tragos com o sol a pino. Ali, na sala, livros de poesia abertos e jogados ao chão, junto de um corpo mole e permeável aos destilados consoladores. A morte já não parecia uma ideia tão desagradável.

Essa história, esse relato do homem desconhecido e apavorado, quem me contou foi o primo de um amigo do meu amigo e, reportando que à época fora vizinho desse Alfredo anônimo, mudou-se dali sem que antes soubesse se ele um dia deixou o condomínio. Diz-se que uma maldição qualquer, seja ela no sentido figurado ou literal, aprisionou aquele homem para uma eternidade no apartamento 404.

2 comentários em “404 – Não encontrado

  1. Ja dizia Franz Kafka .. o tempo e teu capital ; tens de o saber utilizar. Peder tempo e estragar a vida. E viva a sua vida sétimo . Espero que você encontre o Alfredo anônima .

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