Citados, esquecidos e lacrados

É trend. É cool. É o que há. Fazer homenagem a alguma abençoada alma que imortalizou um pensamento é mais que moda, é um refúgio confortável na selva socializadora dos antissociais.

Uma foto, hoje em dia, que não seja acompanhada de uma frase impactante, seja ela curta ou uma oração longa, não tem tanto apelo. Os posts necessitam causar espanto. As postagens anseiam por inspirar em palavras o que a foto representa: alegria, coragem, superação de obstáculos, auto-confiança, sucesso pessoal e êxito profissional. Mas, acima de tudo e mais importante, lacrar.

Lacrou é uma gíria que corresponde a um elogio para quem foi muito bem em alguma coisa, que deixou os outros sem fala ou sem reação.

Quem lacrou não deixou espaço para que falem mal, quer dizer que aquela pessoa “calou a boca” dos outros, como na frase “lacrou as inimigas”.

Ou seja, lacrar corresponde ao completo oposto daquilo que se entende por dialética:

  • no platonismo, processo de diálogo, debate entre interlocutores comprometidos com a busca da verdade, através do qual a alma se eleva, gradativamente, das aparências sensíveis às realidades inteligíveis ou ideias.

  • no aristotelismo, raciocínio lógico que, embora coerente em seu encadeamento interno, está fundamentado em ideias apenas prováveis, e por esta razão traz em seu âmago a possibilidade de ser refutado.

O mundo virtual se converteu em ostentação intelectual daquilo que não se domina e tampouco se explora: o conteúdo histórico, filosófico e antropológico que envolve as faculdades humanas. Uma breve construção gramatical inflama e a apropriação daquela citação satisfaz a gana de se fazer marcar um momento transformador. Quando o que se busca é causar impacto e que o ruído seja ensurdecedor a tal ponto que não possibilite resposta temos a falência do debate e do processo crítico construído através do exercício salutar de saber ouvir antes de falar.

Sim, o mal dessa geração atual tem sido, e muito, o tal do “lacrar“. Há de se iniciar um contra movimento:

EU NÃO SOU LACRADOR

E, quando se menciona alguma ideia alheia, convém que seja citada a fonte.

Sim ou não?

Ora, vamos lá. Eu mesmo, num grande número de vezes, não cito o autor de um pensamento que julgo conveniente compartilhar com os nobres amigos. Por que? Por vários motivos:

  • A citação literária entrou para o rol das coisas que se ostentam hoje em dia, como também o são as viagens, as roupas, as conquistas fitness, os produtos gerais de uma cultura competitiva e de exibição. Ostentar não é o meu forte.
  • Às vezes o foco há de ser a mensagem e não o autor
  • Muitas das vezes o pensador era o Nietzsche, e aí entra em cena um caminhão de gente pra criticar e achar que só leio ele e que blá-blá-blá…

Ah, mas Aquiles, você Nietzsche!

Pra começar, acontece que geralmente quem fala isso, se é que alguma coisa lê, alimenta esse preconceito bestão baseado no incômodo que eu, ao cita-lo, causo.

Por formação sou educador físico, não sou das ciências humanas. A leitura filosófica, que tanto me agrada desde os oito anos de idade, é por conta própria. O bigodudo alemão, que tanto menciono, é dono de uma vasta, densa e peculiar obra. Lê-lo, por simples ato de passar os olhos sobre palavras e concluir um livro, não leva à conclusão que o sujeito compreendeu a mensagem.

O cara era mais profundo que pode parecer, ainda que tantas frases dele povoem o senso comum:

Tudo aquilo que não me mata fortalece

-Friedrich Nietzsche

Logo, eu ainda não li tudo o que a sua obra compreende. Porque amiúde em minha vida paro, volto, comparo com outras coisas que leio e, acima de tudo, releio por prazer de me identificar em sentido e epifania com as vontades.

O tesão profundo continua, incansavelmente, em beber de diferentes fontes, identificar as simbologias atrás das artes todas, sejam as visuais, as plásticas, as musicais ou literárias.

Gostoso é saborear o conhecimento livre que emana da terra e, tal como uma vaca, rumina-lo longamente, digerindo uma vez mais os fundamentos daquilo que, inclusive e em muitas das vezes, sequer compreendemos de início.

Impossível será acrescentar sabedoria quando se pensa já saber de um tudo. Para fertilizar o caminho das ideias, é conveniente consultar os antigos e atuais escritores, assim como se prepara a terra para antes de depositar a semente. Não há maneira de aprender aquilo que já se acha que sabe.

E, profundamente, meus amigos: há de haver o debate!

Um comentário em “Citados, esquecidos e lacrados

  1. Uma reflexão primorosa para a geração ” Lacradora” . Sempre incrível nas suas palavras, concordo muito com você .

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