De punho próprio

Lamplstätt, 20.3.2019

Cessai o curso de vossa nau e largai os remos, irmãos meus; é chegada a hora em que a servidão vos insulta e a paz mansa vos causa mais náuseas que o próprio balancete do mar.

A vós ensino o fogo e a lamparina, e os pés e o caminho vos alerto. Da fibra flexível do bambu faz-se uma trama e sobre essa cama elástica não há o espírito da gravidade.

Passastes a conhecer as metamorfoses e por isso saltais como a criança – acima e mais além, e subindo reconheceis o tempo e o espaço, e um novo tempo e espaço. Sois consciência e luz, e vosso voo agora novamente mira a terra.

Porém, nem tão ligeiro vos deixeis descer, mas flutuai. Flutuai sobre vossa escravidão e enxergai que a verdade de espírito deve ser uma só: – vós escolheis o momento da queda, do retorno ao chão.

E vossa queda é vosso apogeu; agora sois luz e então sois consciência. Vós não podeis ser conduzidos, pois conduzis.

Mesmo a árvore que envelhece continua a dar frutos e mesmo a árvore que morre continua a gerar vida. A sabedoria da terra é o que vos vale, pois desejais estar aqui, escolhestes vir através do pai ao ventre da mãe. Quisestes o mundo tal como era. E o destino, não apenas criastes e aceitastes, como amastes, pois bem soubestes do duende e seu sussurro melindroso – essa mesma vida… outra e outra vez.

É a vossa liberdade rompimento do que fostes ou em vossa mesa há talheres e porcelana, mas falta alimento digno? Por que segurais tão firme a faca com a mão esquerda se é esse o lado do coração? Lembrai, meus irmãos, à mesa também se sentam os pais, e de cada um tirastes os ingredientes da vossa receita e, do vosso forno, da treva do vosso pudor só há de se sentir o perfume de plumérias a vos preencher, e de vós mesmos há de brotar a alegria. A vossa alegria acrescentai à receita e não o contrário!

Conhecei-vos a vós mesmos já não é máxima, mas súplica. Vosso corpo que é templo há de ostentar colunas firmes e em seu interior se demanda a expulsão da culpa.

Criador, condutor e cônscio.

Acordai, irmãos meus.

Assim falei Zaratustra.

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