Limpo há 3 meses

Há exatos três meses venci a batalha que sabotava o domínio sobre mim mesmo. Ora, a sapiência exige que afirme de modo não definitivo sobre a tal vitória pois, dado recorrente na vida, as coisas tendem a se repetir. Logo, celebro a momentânea glória.

Venci a dependência, a um custo não razoável – muito alto por sinal, que é o vazio, o escuro da saudade.

O vício, seja de qual ordem for, demanda atenção dos sentidos, consome o tempo, sequestra a liberdade do ir e vir em troca de prazer intermitente. A adição retribui, em sua justa defesa, conforto e objetividade. Deseja-se a segurança dos seus efeitos, goza-se a euforia decorrente daquilo que se torna algo rotineiro e trivial.

Mais do que qualquer outro artifício normalizante, é a repetição cotidiana que, tornada algo sutil e comum, condiciona o homem a ver a vida, mas não a enxerga-la. O indivíduo dependente e padronizado, esse cidadão que sucumbe ao vício alienado, encaixa-se de tal maneira nas exigências plásticas, de uma sociedade liquida, que não percebe a troca desproporcional entre suas preciosas horas de vida e o retorno que esse “dever” lhe dá.

Ora, o adito tem o cérebro sob recompensa química da satisfação de ter cumprido suas demandas. É mais um cidadão comum que se submete às mesmices que todos os outros seus contemporâneos também o fazem.

O medo latente provocado pela abstinência da sua substância, o pavor de se ver livre daquilo que o acorrenta, esse receio de destoar da imensa manada que gira as rodas dentadas que compõe a engrenagem do mundo, ah meus irmãos! – angústia maior não há.

O homem parece ter gosto pelos grilhões da escravidão e, não somente, parece padecer de um esquisito desejo pelas chibatadas punitivas àquele que ousa a emancipação. O homem, mas não o além-homem, depende desse cabresto.

O super-homem goza da liberdade de pensamento, da liberdade de opinião e da liberdade do mudar-de-opinião.

Não trato aqui de nada químico. Engana-se aquele que julga, a essa altura, ser um algo lícito ou ilícito que chantageava a minha paz de espírito.

Livrei-me, dizia, do vício sufocante da rotina.

Hoje, experimentando em longos e doces goles novos sabores de horizonte, inéditos perfumes de música e surpreendentes melodias de cores, sei do peso que constitui o rompimento com o rebanho. Como também já citei, a saudade é o contra peso da emancipação.

Santa vitória pessoal, louvada seja o fôlego antes do primeiro mergulho na manhã de domingo!

Todo esse texto não é uma ode ao ócio ou um manifesto contra o trabalho. Valei-me! Evoco a força ancestral que me foi necessária para romper, tão somente, com os padrões de horário, quantidade de horas e disponibilidade frente ao “mercado social”, composto não apenas pelas atividades profissionais como também pelas relações interpessoais.

Recuperado da rotina, ironizado por aqueles que não sabem voar, procuro ir ainda mais alto, onde o silêncio não é absoluto, pois as avem cantam e o vento sibila.

Porque no fundo do poço nunca se está sozinho, e talvez seja isso que conforta tantos decadentes.

Por outro lado, para andar de cume em cume é necessário pernas longas e pés leves, como os de um bailarino.

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