Se o mundo parasse por um instante…

Aí sim eu também pararia! Pararia para avaliar, julgar, decidir, sobrepor a razão aos meus instintos. Pararia para fazer juízo de valor sobre os eventos que sucedem ao meu redor. Para levar à luz um minucioso escrutínio acerca das intempéries que me foram ditas, para ser modesto, só na semana passada.

Só que não, a terra não cessa seu giro e eu, por minha vez, não renuncio também a minha órbita. Gira o globo de modo obrigatório e giro eu, por ato voluntário.

Quando tinha lá para os meus nove, dez anos de idade os conflitos com a matemática me foram introduzidos no ambiente escolar. Para alguns eram só problemas, para mim eram a negação da vida. Letras que tinham valores sem formar frases, números com outros números em cima, multiplicações e divisões. Divisões com vírgula!

As coisas iam de mal a pior com o acentuado aumento da dificuldade com as equações e enigmas numéricos. Desde cedo, não sei bem o porquê, desenvolvi um sentimento de proteção que me permitia burlar os sistemas.

Ora, se a tal da aritmética seria uma presença constante no meu porvir estudantil e, tendo a exata noção de que não faria dela nada além de mera peça decorativa na vida adulta, percebi que tinha o direito pessoal e íntimo de rebelar-me contra a opressão do tal aprendizado e, não bastando assistir às aulas, sua posterior cobrança em provas e testes orais ou dissertativos. Era de mais! Além de submissão a uma tortura auditiva, o professor ainda me botava numa cadeira e obrigava que eu correspondesse as suas esperanças de fixação de um conteúdo completamente abstrato ao meu imaginário poético e filosófico da vida. Estudava à minha maneira mas colava muito também. Era sempre o mínimo para seguir adiante ao qual eu me dedicava.

Sim, em precoce idade já em mim brotava o gosto por perguntar os “por quê” e “como” sem aceitar explicações baratas, muito menos ordens cegas. Nasci rebelde, para o profundo desgosto dos meus genitores. Não me guiou pelas veredas da insubordinação mental ninguém, já que foram as minhas próprias pernas que me sustentaram ao escalar as prateleiras de livros em casa, revirando os conteúdos e explorando os ideais daqueles homens e mulheres registrados em longos fascículos.

Nessas escaladas literárias, num belo dia, quebrei a perna.

O tempo foi em frente e já não só as disciplinas que me desagradavam na escola haviam aumentado em número como em volume de conteúdo mas, para piorar, ainda era involuntariamente portado a igreja (mais precisamente o salão do reino das testemunhas de Jeová) ao menos duas vezes por semana. Às vezes três, quando duas eram em função de reuniões para pregação da palavra e uma outra, sorteada semanalmente, a fim de que cada família realizasse a limpeza do local como esforço comunitário para a manutenção da boa estrutura. Desse dia de limpeza eu gostava e muito. Afinal era um trabalho prático em si, fora que envolvia água + sabão + azulejo liso para escorregar. Um alento.

Ora, então já somados tantos “deveres” que me cabiam e eram indiferentes ao meu arbítrio, comecei lentamente a ingressar por instinto no sentimento do Amor Fati, que é o objeto de análise desse post. Calma e pacientemente percebi que tanto fazia o meu desespero antes de uma prova de matemática, ou a angústia de ter que ir de novo a um encontro religioso que não me agradava. Eu deveria estar presente em ambos os casos, independente da minha vontade genuína. Assim como era, do ponto de vista cósmico, absolutamente irrelevante o meu júbilo ao tirar 10 em história. Era tudo inevitável, como é o tempo e a sua passagem. Ao realizar a verdade de que o tempo passa constantemente, que ele se sucede no mesmo ritmo e cadência e, daí, tanto as coisas agradáveis como as desconfortáveis vão passar, foi quando incorporei um sorriso sarcástico dentro do peito.

Quero cada vez mais aprender a ver como belo aquilo que é necessário nas coisas. Amor-fati [amor ao destino]: seja este, doravante, o meu amor! Não quero fazer guerra ao que é feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores. Que minha única negação seja desviar o olhar! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia, apenas alguém que diz Sim!

Nietzsche in A Gaia Ciência

Não só aceitar como amar o destino. Não acusar (reclamar ou atacar), nem mesmo atacar os atacadores. “Puxa vida, que bela definição” você deve estar pensando agora. Pois é, imagina quando descobri que já fazia isso instintivamente desde há muito.

Que minha única negação seja desviar o olhar!

A linha do tempo, o universo, o cosmos, o seu deus, defina como quiser, trará muita coisa no decorrer do curso da sua vida. Muito além de ficar parado, ancorado na necessidade dicotômica de avaliar as coisas como boas ou más, mais nobre é a caminhada, o processamento e a resolução tomada após o que o acomete, o seguir em frente.

O tempo não espera por ninguém, não espere pelo tempo. Aproveite bem o seu dia.

Um comentário em “Se o mundo parasse por um instante…

  1. Descobri seu blog agora, meu amigo, mas não sem tempo de me deliciar no seu texto claro e, contrariando a maioria, cheio de lucidez.
    O Brasil vive um momento de boicote à filosofia, pasme você, mas que bom saber que nossos princípios foram enraizados em nosso intelecto desde outrora, longe dessa briga do bem contra o mal. Um viva à estante filosófica de sua infância. Hoje beberei em homenagem à ela, à você e à todos nós!
    Avante, meu caro!
    Rubens Neto

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