Caninus fidelis

Quando anunciei que viajaria, pela quarta vez, aos domínios do Reino da Tailândia, muita gente só fez perguntar:

“- vai encontrar o Whisky, Aquiles?”

Pois é, foi a mesma coisa quando eu de lá retornei em 2016. Encontrava amigos na rua, apertávamos as mãos, abraçávamos e ouvia imediatamente perguntas sobre o meu fiel amigo canino. Foram dezenas de vezes que isso se passou. O Whisky é mesmo um cão contagiante, por mais lugar comum que isso seja e por mais que todo mundo fale o mesmo do seu próprio animal, só eu sei que aquele cachorro não é normal.

Escolhi o seu nome instintivamente após 5 minutos em sua companhia, quando ele me encontrou numa providencial manhã de agosto.

Você vai se chamar Whisky, pois o uísque é o melhor amigo do homem!

Vivemos quatro dias incríveis dormindo, acordando, comendo, nadando e fazendo trilhas juntos. Ele até me ajudou a paquerar, sendo o melhor wingman que eu já tive. A técnica era se aproximar de belas donzelas e se exibir até que elas viessem me perguntar se o cachorro era meu. Tudo por iniciativa própria, é claro. Daí se seguia que eu jamais declarei posse sobre o meu parceiro.

O Whisky é dele mesmo, ele é livre. No máximo, eu sou dele.

Porque era a mais pura verdade. E continua sendo. Qual o sentido de aprisionar uma vida, tolher sua liberdade se não o de satisfazer um impulso psicológico de controle, de punição e de poder? Não me faz sentido.

Nunca gozei de felicidade em levar cachorro pra passear na coleira. Por esse motivo, quando morava na saudosa República Sokatcha S.A. na cidade de São Carlos em tempos universitários, levava o Juca e a Sara para passear na área de cerrado da cidade. Por se tratarem de um Rottweiler e uma Pit-Bull, respectivamente, era óbvio a necessidade de um ambiente controladamente seguro para os deixar sem coleira. Não por serem agressivos, mas por serem potencialmente letais ante a qualquer coisa. E lá os dois se esbaldavam em corridas, cavações e perseguições a tatus.

Voltando a essa ultima viagem que se encerrou há um mês, continuei a receber perguntas sobre o paradeiro do Whisky. E dado o fato que nada postei a respeito, agora abro o jogo:

Reencontrei sim o meu querido cãozinho pelo mais total acaso, na companhia de seu bom humano, o DJ Skinny Mark. Estava eu em mais uma notória noitada a beira mar com meus amigos, namorada e novos amigos agregados. Dada a incontinência urinária pelas enormes quantidades de cerveja ingeridas a fim de refrescar o calor da terra de Sião, esgueirei-me para um canto distante da praia para tirar água do joelho.

Eis que termino e, ao me virar, lá estava ele. Na minha frente. Sem o menor esforço para encontrá-lo. Após longos três anos o universo me brindava com a beleza daquele cão bem feito, branco e marrom, pernas largas e patas firmes, orelhas bem sustentadas indicando serem herança de um cruzamento de algum cão de raça nobre. O meu Whiscão, olhando para mim (bebado).

Ajoelhei-me e abracei-o. Beijei seu pelo e repeti varias vezes seu nome, envolto na mais profunda felicidade que me era permitida. Acariciei-o e dei mais tantos beijos em seu focinho.

A essas horas você, emocionado tal como eu estou ao relembrar esse momento, imagina o que ele fez né? Lembrou-se de mim e me encheu de lambidas?

Pois é aí que você se engana. O Whisky não me rendeu nenhuma deferência. Ele resistiu aos meus afagos e subiu na moto do seu “dono” para ir embora. Mostrei nossas fotos a ele, o que o deixou muito feliz em saber que eu havia cuidado dele antes.

A minha felicidade e regozijo não dependia da reciprocidade do cão. Eu não me alegrei em prendê-lo em uma coleira e levá-lo ao Brasil comigo, como muitos sugeriram. Eu não me entristeci quando ele não manifestou reconhecimento ao me encontrar.

O meu grande prazer na vida foi tê-lo conhecido e aprendido tanto naqueles quatro dias do ano de 2016.

Nos sentimos bem em meio a natureza porque ela não nos julga. – Nietzsche

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