Eu acho…

A internet, parafraseando Umberto Eco, popularizou a opinião vulgar e medíocre. Não importa a área do conhecimento, tem-se opinião. Tanto faz a pertinência do assunto, comenta-se. Indiferente a necessidade técnica de conteúdo para o debate, a simples vontade de emitir parecer acerca de fatos que, no mais das vezes, nunca antes foram alvo de reflexão virou o grande tesão de uma massa que quase sempre é nada além de ordinária.

Significado de Ordinário

adjetivo

Que está em conformidade com o habitual; que é comum; normal: circunstâncias ordinárias.

Que se repete com regularidade; que tende a acontecer com frequência: discursou a sua ordinária ironia.

Que não possui nem demonstra brilho (proeminência ou destaque); em que há mediocridade; medíocre.

Que qualidade inferior: vinho ordinário.

Excetuam-se dos relatórios avaliadores as ciências exatas, é claro! Já pensou? Você deslizando em plena avenida a bordo do seu bólido possante, avistar um dos sequenciais novos edifícios que se erguem nesse planeta brasilis cujo regime de sustentação econômica parece ser nada além da construção e exploração imobiliária e eis que, bum! você se indigna, estanca o carro em frente ao canteiro de obras e pede para falar com o engenheiro responsável:

⁃ meu senhor, ao transitar em frente a este prédio cujos operários vagam de lá para cá não pude deixar de notar. Os cálculos diferenciais e a mensuração dos quadrantes de resistência das vigas são um total absurdo! Creio que o senhor deve mudar imediatamente os parâmetros que orientam os alicerces dessa edificação, pois quanto a eles eu não concordo!”

Pois é, consegue imaginar? Nem eu. E por que raios quanto às outras ciências todas há tanta, mas tanta divagação? Por qual razão se assume que é aceitável emitir “acho” a torto e a direito sobre qualquer tipo de assunto sobre o qual nunca se debruçou a raciocinar?

Ora, o homem comum tem necessidade de aceitação em grupos, de se aglutinar em coletivos que não só o aceitem como o protejam. O homem comum vive em rebanho, quentinho e acolhido.

“Moral é o instinto de rebanho no indivíduo.” – Nietzsche

Dada a pungência com que hoje as notícias se propagam ainda que nós não as busquemos, situamo-nos todos em posição de opinar. Como assim você não tem posição quanto a reforma da previdência? Qual é a sua posição quanto a questão dos imigrantes? E sobre as vacinas obrigatórias às crianças, o que você acha?

Antigamente, no início desse século e antes dos comunicações digitais que se tornaram meios de compartilhamento de notícias (falsas ou não), só obtinha informação aquele que lia jornal ou assistia ao telejornal. Isso mudou e a paciência teve de se agigantar deveras.

Nem tudo é tão sério que não se permita pensar in loco sobre a solução. Se o meu vizinho me conta que agora existe coleta seletiva no bairro e indaga se devemos organizar uma associação de moradores para gerenciar o bom encaminhamento desses dejetos, tão pronto posso imergir na questão.

Não se dá o mesmo com o debate sobre políticas públicas ou sistema financeiro, por exemplo. Até porque, fato evidente, mais há um consenso de opiniões contraditórias com a conduta pessoal do que harmônicas com aquilo que se executa no dia a dia.

“Opiniões públicas, preguiças privadas.” – Nietzsche (de novo haha)

No fim do ano de 2018, semanas antes da data das eleições no Brasil, vi-me em situação de argumento político. Presenciando um indivíduo abrir a torneira de uma caudalosa diarreia mental, foi no mínimo cômico o que se seguiu. Sem me posicionar e muito menos atacar, pelo contrário, apenas contestar com perguntas sequenciais e simples no que se referia às bases de seu pensamento, levei o sujeito à literal e explícita loucura. Ao que ele bravamente defendia, com toda a sua razão, uma renovação na política ao justificar a escolha para presidente da república, perguntei então quais eram seus candidatos ao governo do estado, a deputado federal e estadual e a senador. Da sua fina boca aveludada cuspiu nomes que já exerciam mandato.

Ué?

Não recomendo o debate a ninguém que não domine assunto nenhum. Nem mesmo quando o interlocutor pensa diferente. Não deve ser o instinto combativo o motivo de se arguir a respeito de nada. Se falam sobre algo que você discorda muito embora não exerça profundo conhecimento, é mais nobre calar e estudar.

“Nunca discuta com um idiota. Ele o rebaixa ao nível dele e, ali, bate você com muita experiência.”

Nesse universo virtual de hashtags e bolhas, tem mais a perder aquele que resolve se manifestar. A palavra é de prata, mas o silêncio é de ouro.

Um comentário em “Eu acho…

  1. Tragam um Oscar pra esse rapaz, um não, Dois, para caso ele perca o primeiro.

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