Doses, tragos e o perigo como ofício: o que é o amor?

Instigado a compartilhar a minha visão acerca do amor, esse conceito tornado tão chulo nos tempos de hoje, demorei-me a debruçar sobre as linhas.

Não raro é o indivíduo que tem amor demais. Na verdade ele é a regra contemporânea; ama os amigos, ama a novela das oito, está amando a nova coleção de produtos X, ama cada um dos clientes, ama o companheiro, e, tão fácil e espontâneo como o “atávico sentimento” de querer, o cidadão desama na mesma velocidade da luz.

Essa relação de amor como uma forte paixão e desejo, um querer bem profundo combinado a admiração do desejo nada é além de uma euforia e, dado todo clímax, é breve e volátil. Como quereria o filósofo psicólogo (o primeiro), há de se atentar às projeções quanto aos reais objetivos das vontades. Em outras palavras:

Ele traz à tona um ponto de vista orgânico sobre as boas sensações que o desejo, como coisa em si, traz ao homem. Por isso, ama-se as sensações essas que são causadas em virtude do objeto desejado, muito embora não seja ele (o objeto) realmente a fonte do prazer.

Acabamos por amar nosso próprio desejo, em lugar do objeto desejado.” (Nietzsche, Friedrich Wilhelm. Além do bem e do mal ou prelúdio de uma filosofia do futuro)

Se frearmos a mente para o raciocínio digno sobre o nosso próprio desejo ao “amar aquele sapato” ou “estar amando a viagem de lua de mel”, enxergamos o quanto da satisfação vem da sensação positiva de poder que emana ao amarmos algo que podemos e, casuisticamente, possuímos. Ama-se ao próximo nessa sociedade educada pois o tal amor ao próximo realça a imagem altruísta daquele que, vaidoso, deseja o selo de bom samaritano colado ao corpo. O nosso amor ao próximo não será o desejo imperioso de uma nova propriedade? E até quando vai esse amor? Já não ama mais o seu amigo? Até quando vai esse amor supérfluo derramado a torto e a direito?

O amor não é efêmero, oras!

O amor não é isso, em substância, esse troço que existe e deixa de existir. Amor é afirmação permanente, amor é.

Não se pode desamar, senão e somente quando um não compreende realmente aquilo que se entende pela nobre inspiração dos ventos amorosos. É, como um filtro aplicado a visão, a lente que muda tonalidades e reconhecimento das coisas, não garante que seja absoluto em maravilhas e felicidades mas, ainda assim, é latente.

Agora, muito mais comovente é o consenso geral de, mediocremente, atar amor ao bem querer poético, ao desejo carnal superlativo, fazer do amar um sinônimo de dois patinhos na lagoa. Pois é o amor sexual que se revela mais nitidamente como um desejo de posse. Aquele que ama quer ser possuidor exclusivo da pessoa que deseja. Duas pessoas se conhecem, entregam-se às vontades loucas de Eros e já brota da boca de um “- eu te amo”, emendado ligeiro pelo “- eu também te amo!”. UAU! Já dizia a Diva Pop:

– Todo mundo te ama quando está prestes a gozar. (Madonna)

Mas essa crítica ao amor vulgar e comum não é em função de se colocar em um pedestal e criticar a humanidade feito um falso profeta. Longe disso. Vamos clamar por mais reflexão: amamos de verdade quando fazemos aquilo que se coloca além do bem e do mal. Amamos uma pessoa, seja ela sua mãe, sua namorada, o padre da paróquia, quando nos reconhecemos nas falhas dela. Amamos em honesto quando podemos ver crus os defeitos mais perversos do ser amado e desfrutarmos em conjunto daquela caminhada beirando o abismo. Pois não desistimos, não aceitamos a derrota ante a desgraça e queremos amar o que é difícil, queremos a árvore que cresce alta aos céus e profunda nas entranhas da terra.

Bukowski disse que o amor é um cão dos diabos e, ainda, deu um outro conselho:

Encontre aquilo que você ama e deixe que o mate.

Trágico, não? Bukowski…

Discorrido isso e aquilo, ainda não falei sobre o meu amor, sobre a minha coisa pulsante. Aquilo que, ainda que eu veja por mais de três meses ou três anos, continuo sobre-humanamente querendo enaltecer. Andando pra cima e pra baixo no mundo com a Larissa, cada vez mais vou descobrindo o significado da palavra. Minha amiga incondicional, tão jovem na cronologia e tão sapiente na psicologia. A companhia ideal para o luxo e o lixo. A questão simples a se perguntar é “faria eu ao meu amigo o que estou a fazer a quem eu digo que amo?”

Existe realmente, aqui e além na terra, uma espécie de prolongamento do amor, no qual o desejo que dois seres experimentam um pelo outro dá lugar a um novo desejo, uma nova cobiça, a uma sede superior comum, a de um ideal que os ultrapassa a ambos: mas quem é que conhece tal amor? Quem já o viveu? O seu verdadeiro nome é amizade. (NIETZSCHE, A Gaia Ciência)

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