Dos sentimentos possíveis

Fosse viajar como um encontro amoroso, daqueles que você começa a se arrumar, aparar unhas e bigode um dia antes, eu com certeza causaria má impressão. O desempenho na arte da conquista exige tranquilidade e, em face ao desconhecido mundo que me aguarda em mais uma viagem transcontinental, fico sempre com o coração acelerado e a conjecturar inúmeras possibilidades de vias, rotas, erros e acertos que me aguardam no amanhã cego que se alevanta.

Ir significa, por definição categórica, deixar algo ou alguém. Já cantou Tom Jobim: “eu sei que vou chorar/ a cada ausência tua eu vou chorar/ mas cada volta tua há de apagar/ o que essa tua ausência me causou”. E tal qual a intensidade excitante de se jogar ao mundo, a efusividade de se libertar de horários e compromissos, assim é a melancolia profunda que sequestra o fôlego dos pulmões na hora do adeus. Vamos, porém, voltaremos?

Herdei, por cota genética, a bravura e destemor que impelem a minha carcaça rumo ao caminho, não ao destino, mas ao repetitivo (ad eternum) exercício do ir, do mover-se adiante, de travar longas disputas com a auto-resistência mental, a sorver goles ardidos nos copos que me servem, a dormir em camas de campanha, a ceiar junto aos que abrem suas portas e servem seus pequenos banquetes diplomáticos. Propus-me a dizer SIM a vida, a coibir o sentimento do medo, a fugir do lugar-comum entediante de opiniões massificadas e conceitos chulos sobre a vida e suas derivações.

Vejam como com um tanto de acidez o filósofo Friedrich Nietzsche castiga o (contemporâneo) homem de raso conteúdo:

Amamos a vida não por estarmos acostumados a viver, mas a amar.

Nietzsche, F. W. – Assim falou Zaratustra

Cuidado! Muito cuidado com os pregoeiros do “sentido” da vida, ou seu “propósito”. São esses, no mais das vezes, os que menos entendem sobre o que discorrem.

Tomei um rumo e ajustei as minhas velas. Não preciso, tampouco, do vento generoso que sopra de banda, pois tenho remos e sobra em mim a força viçosa de me mover. Costas largas e braços famintos, desejosos pela fadiga. Deslizar, caminhar, correr, voar. Não preciso de recompensa ou objetivo a me convencer dos meios que me transportem. A vida é; a frase acaba na afirmação. O que é, como é e para quem é eu descubro a cada dia e desfaço a opinião no instante seguinte. Da Grécia vem a sabedoria de Heráclito que reflete: “ninguém entra no mesmo rio duas vezes, pois não se encontram ali as mesmas águas, assim como o sujeito também se modificou.”

Despedi-me de tantos, rangi os dentes ao alçar voo e exultei a cada inesperada conquista. Impus distância a toda essa necessidade vulgar de taxar a vida, de dar-lhe absolutez e forma exata. Enterrei a conversação nas conjugações do Imperativo. “Tu deves”, “é necessário, pois” já não fazem parte de mim.

É chegada a nossa hora.